sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crónica de um fim anunciado


Desde o fim do mundo, que não ocorreu, que fiquei com a música da Adriana Calcanhoto na cabeça. Aquela, em que diziam que o mundo ia acabar e que não acabou. E que ela fez umas coisas e que não devia de ter feito, porque afinal o mundo não acabou... Enfim, uma novela, não fosse a senhora brasileira, o jeito está no sangue!

Posto isto, e considerando o não-fim-do-mundo, fiquei à espera de ver histórias parecidas nos tablóides do mundo. Alguém apanhado a correr nú, animais a falarem, porcos a andar de bicicleta, vacas a tossir... Enfim, todo o manancial de coisas insólitas que têm um cantinho especial no Correio da Manhã. Mas não. Não vi nada. Nem houve avistamentos de naves alienígenas. Nada. Um deserto de emoções.

Não é que tivesse ficado triste com a ausência de um rollercoster emocional. Fico é a pensar: se o mundo de facto não faz sequer um "bu" para acagaçar a malta, então é mesmo desta que não vamos lá. Entendam que eu não tenho vontadinha nenhuma de ficar cheia de miaúfa com um tufão ou coisa que o valha, mas há muito boa gente que precisava de sentir o toque mais à bruta da impermanência. Da mutação rápida das coisas. Não falo apenas em termos ecológicos (era bom entenderem que os recursos não são inesgotáveis), mas sim, e fundamentalmente, no propósito individual de cada um. Ou seja, no que é que raio é que andamos aqui a fazer. E como é que o raio que aqui andamos a fazer bate naquilo que o outro, ali ao lado, anda a fazer. E assim, qual rede de cruzilhadas, chegamos ao que a Humanidade anda aqui a fazer, entre os seus e com os outros à volta que fazem parte da dita Natureza.

(Engraçado, agora fiz aqui uma ligação de palavras, humanidade = humildade. Este início em "hu" podia ser um prenúncio de algo mais a ser construído entre as duas palavras. Algo mais... humano!)


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Relação é emprego

Invejar uma relação que corre bem é como invejar alguém que tem dinheiro. Passo a explicar. Normalmente, as pessoas têm tendência a invejar os resultados de algo e não o trabalho que deu a chegar a esses resultados e, da mesma forma que alcançar ou manter uma boa vida financeira requer trabalho, também uma relação.

Enquanto crescia, vi a qualidade de vida da família crescer. De dormir no chão, passei a dormir num quarto só para mim, na casa que os meus pais construíram e que tanto sonhavam em ter. À nossa volta sempre existiram pessoas com inveja dos meus pais. Daquilo que eles tinham. Mas em momento algum eu ouvi comentários sobre o trabalho que sempre tiveram para alcançar aquilo que alcançaram. Nunca ouvi ninguém dizer que tinha inveja do seu horário de trabalho, que era todos os dias, de manhã à noite. Em vez alguma senti vozes dissonantes, querendo ter o trabalho de estar em pé todos os dias. Nunca ninguém me disse que gostaria de ter o trabalho, mas sim o carro; de ter as dores no corpo, mas ter a casa...

Já lidei mal com esta situação que considerava de injusta. Neste momento, sinto que as pessoas que pensam desta forma são muito pequeninas e que têm muito trabalho pessoal para fazer.

Voltando ao tema que interessa aqui, uma boa e longa relação, que funciona, também pode ser alvo de inveja. Mas não se invejam os processos pessoais, as horas de terapia ou as relações que antes correram mal e que mataram tantas vezes o coração. Não se invejam as desfibrilhações feitas, os remendos, as cirurgias emocionais sem anestesia. Invejam-se os sorrisos de agora, mas não se invejam os choros do passado. Uma relação sólida é trabalhosa, e mesmo assim, nem sempre se é feliz, pois a compatibilidade pode sempre oscilar. Construir uma estrutura a dois parte de incríveis trabalhos individuais. E não é fácil. Mas vale, garantidamente, a pena.

E desenganem-se os que consideram que passar uma vida juntos, sejam 10, 20 ou 30 anos, é o suficiente. É a forma como esses anos são construídos. É a velha tese da qualidade vs quantidade. Anos? Passam rápido. Relações? Precisam de muito mais do que anos. Precisam de ser vistas de frente e precisam de manutenção permanente.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sim, existe!

De manhã, enquanto coloco o creme na cara, olho pela janela que está aberta por causa do vapor do banho. Contemplo a vista e, ensonada, divago sobre o tudo e o nada. Vejo uma vizinha a aproximar-se da janela no prédio em frente. Não lhe vejo a cara, os estores estão a meio. A vizinha abre a janela e deita dois papeis fora. E foi isto que me fez ficar a olhar incrédula e parada pela janela. Ela fechou a janela e afastou-se mas eu continuei a olhar pela janela...

Estamos a terminar o ano de 2012 e eu não acredito que isto ainda existe...

sábado, 8 de dezembro de 2012

Coração de cartola




Coração de cartola, que a cartomante usou. Pôs na mesa, como uma carta. Virou-o como quis, dobrou e entortou. Levantou-se da sua cadeira altiva com a graciosidade que a caracteriza e saiu da sala. E coração ali ficou.

Imagem: http://www.casamentoclick.com.br/blogs/casamentos-sofia/2011/02/faca-voce-mesma-coracoes-de-papel-para-decorar/

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Outonos

Este Outono lembra-me os Outonos da minha infância. Chovia, chovia, chovia.... Chovia sem parar. Não era chuva "molha-tolos", nem era chuva de provocar cheias, ah mas era chuva à séria!

Na casa onde vivia, a sala não tinha janelas. Era miníma. Ainda mais escura ficava o tempo feio que fazia lá fora. As paredes também eram escuras. Móveis castanhos, alcatifa azul escura. Mas eu gostava daquele conforto da chuva na rua, o quente-e-escuro da sala, a minha mãe a fazer crochet e o candeeiro tão eighties que iluminava a tarde. E o silêncio. Recordo-me do silêncio. Aquele que permanece para além da chuva, do escuro e da solidão de um dia de Outono. Era confortável, bucólico até. Embora com 7 anos eu não soubesse que palavra era essa... Mas resume tudo isto.

Olhava pelo "postigo" da porta de entrada, que dava para a cozinha, e ficava a ver a chuva a cair. Não passavam carros, não acontecia nada. Só chovia. Lá ao fundo, na entrada de uma casa que só via ocupada de Verão, abrigava-se um cão. Era o cão abandonado lá da aldeia. Acho que se chamava "Snoopy", nome comum de cães na altura. Era dali, de ninguém e ainda assim, dali.

E são assim as memórias de uma infância de Outono. também me lembro de perguntar à minha mãe se faltava muito para a chuva parar. A sensação que tinha e que me lembro tão vivamente é que nunca parava de chover.... E assim era.

Imagem: http://osmeussonetos.blogspot.pt/2008/04/douradas-folhas-de-outono.html

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Somatização

somatização
(somatizar + -ção)
s. f.
s. f.

[Psicologia]   [Psicologia]  Inscrição de um conflito psíquico numa .afecção somática.

somático
adj.

Relativo ao corpo.

 Ontem fui ao dentista. Está tudo bem. De há algum tempo para cá que vou lá uma vez por ano fazer uma limpeza. E fico por aí. Não há cáries, não existem dentes estragados. Os meus dentes são considerados de qualidade e são agraciados com uma dose de fluór e a retirada do tártaro uma vez por ano.

Antes de começar a limpeza, falei mais uma vez à Senhora Dentista sobre a minha grande sensibilidade dentária. Então, de uma forma muito profícua, a Senhora Dentista passou "ar" entre os dentes e a sensação de sensibilidade apoderou-se de todo o espaço entre entre dentes, debaixo de dentes, ao lado de dentes... Aquela sensibilidade dentária que entra pelo dente e vai até ao topo da cabeça, mas por dentro, enquanto também passa pelos ouvidos e apita fortemente. A Senhora Dentista disse que se calhar era melhor eu usar uma pasta para ajudar nesta sensibilidade e voltar lá dentro de uma semana ou duas, quem sabe. Eu, estoicamente disse: "Não! Eu sou uma mulher forte, eu vou fazer a limpeza agora!". Antes tivesse sido assim, de facto foi mais isto:

Pensamento: "Epá, voltar cá? Grande chatice! Eu cá quero é despachar isto..."
Palavras que saíram da minha boca: "Não, deixe lá, fazemos a limpeza já hoje!"

Avançando no procedimento de limpeza dental, a Senhora Dentista surpreendeu-me (ou não), com a explicação para a minha sensibilidade dentária: os meus dentes estão a ficar gastos, e desta forma, fica mais à mão de semear uma parte do dente que está em contacto com sei lá o quê e que o torna mais sensível (lamento a ausência de termos técnicos, mas de ontem para hoje consegui apagar isso tudo da minha mente...).

Origem do desgaste? Podia ser da escova de dentes, se fosse mais rija e se eu lavasse os dentes em forma de ataque. A Senhora Dentista diz-me: "Não me parece que seja da escova (enquanto toca nos dentes mais sensíveis, cá para trás), isto é desgaste por causa da tensão, percebe?". Se eu percebo? Oh cara doutora, se percebo! A força mastodôntica que eu faço com os dentes é o simbolo de toda a tensão que eu tenho no meu corpo, sô'tôra! Não, não disse nada disto, até porque naquele momento não podia falar, fiz apenas um olhar cúmplice, como quem diz que concorda, acompanhado de um "hnummn!".

Então a surpresa vem de onde? De estar perante uma dentista que me fala claramente uma linguagem que eu conheço: somatização, ou seja, as porcarias que nós fazemos e que fazem com que o corpo sofra, e depois sofremos nós num todo, culpando o invisivel, o demo ou o vizinho do lado.

Sim, tenho muita tensão no maxilar. Ui, sim, faço muita força e mordo as bochechas (calma, as minhas e por dentro...). O que pelos vistos, para além de me fazer as óbvias feridas na boca, também me tráz uma sensibilidade extra, qual promoção (pague um leve dois!).

Posto isto, permaneço na minha tentativa de suavizar a tensão dentária e ao mesmo tempo, feliz por ver outras conversas a surgirem num consultório branquinho.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Psicologias


E não tem de ser a de consultório, embora fosse essencial para todos sem excepção: doentes, não doentes, crentes, mal-dizentes... Psicologia de sofá, de telefone, de amiga ou de piropo, é por demais importante. Dizer que o outro está bonito, reconhecê-lo, vê-lo e experimentá-lo, é psicologia. Falar mal do pai, xingar o irmão e bater o pé, é psicologia. Chorar a ver filmes tontos, rir do salto do gato, passear à chuva, é psicologia! e saber o que isso quer dizer... Fazer pontes, caminhos, e percorrê-los. Testá-los.

Imagem: http://www.facebook.com/#!/AForayIntoPsychology

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Voando


Continuando neste exercício de tentar escrever todos os dias, paro por uns momentos e olho para as minhas mãos sobre o teclado. Estão a postos. Preparadas para começarem a tentar acompanhar a chuva de palavras que saem da minha cabeça. Ou será que saem doutro lado? Sairão de onde? Às vezes parece que saem de mim, mas da minha totalidade. Bem, às vezes não é chuva miudinha. Às vezes começam a sair as palavras a uma velocidade maior que as mãos, ou melhor que os dedos, não conseguem acompanhar. Troco as palavras, troco as letras! Quando reparo está tudo sublinhado a vermelho, como se isso me envergonhasse. Não envergonha. Quantos mais erros de simpatia, mais está o texto a fluir. Engraçado, não é? Quantos mais erros, mais flui. Mais sai sem dar conta da ordem das letras, da construção das palavras. Há letras a mais, há letras trocadas! Há tanto para corrigir e alterar. Se vissem antes de corrigir...É uma chuva de palavras com sublinhados, como se tivessem um tapete voador por baixo. Voam pelo papel no tapete mágico (que é vermelho, claro está), mas quando eu as deixo aterrar, corrigindo-as, o tapete é guardado. E quem voa sou eu!

Imagem: http://www.facebook.com/#!/AForayIntoPsychology

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Outras amizades


Dizem que o contacto com animais de estimação nos pode acalmar. O que é um facto é que os animais vinculam-se connosco sem dúvidas, questões, obstáculos e ficam. Sim, ficam de forma permanente, ou já ouviram alguma história de um animal que abandona o seu dono?

Não gosto muito da palavra "dono", é um facto. Os meus gatos são os meus companheiros. Vejo-os de igual para igual. Iguais a mim, apenas mais sortudos porque simplesmente são. Sim, simplesmente são gatos. Não há neuroses, psicoses, crises existenciais ou dúvidas sobre o amanhã. Muito menos existe a perdição no passado. Estão no aqui e agora, presentes. As suas crises são saber a que horas volto para dar mimo e comida. Ah, e água fresca, adoram!

Às vezes chateiam-me, fazem asneiras, sujam a casa. E depois enchem-me de mimo, mesmo que tenha ralhado com eles. Não conhecem o ressentimento. Mas conhecem a nossa tristeza e abraçam-na quando mais precisamos. Dão um olhar especial e umas turras que convenientemente nos dizem que estão ali ao pé de nós. E não vão embora.

Imagem: http://www.facebook.com/#!/AForayIntoPsychology

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Está a chover!



Deitem fora os chapéus, está a chover! Venham para a rua, saiam de casa, apanhem ar, água, chuva vento, o que for! Venham. Não se protejam da chuva e saltem para não ter frio. Aqueçam o coração com os sorrisos que dão a quem olha e pensa que são loucos. Loucura abençoada, da água molhada que cai e não congela, antes flui... Visitem a vossa criança...


Imagem: http://www.facebook.com/#!/AForayIntoPsychology

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Como os olhos estão maiores


É engraçado como as coisas são. Gosto muito de colocar o itunes em modo aleatório e deixar-me surpreender pelo que pode aparecer. E de repente aparece este artista. Já tenho o álbum há algum tempo e nunca dei importância. A música é Eyes Wider Than Before. E surge precisamente quando fecho mais um ciclo. E este ciclo, ui, tem muito que se lhe diga.

Tenho muito caminho a fazer, eu sei, mas conheço-me muito melhor. Os olhos estão maiores. E vêem muito mais, tanto para dentro como para fora. O pack Biossíntese como ontem lhe chamei, é o responsável pelo aumento do tamanho dos olhos. Os olhos que se fechavam, que viam aquilo que queriam, sabem que (conforme a música) you can wake in the morning, feeling that you can breathe. E respiro, e com mais clareza, e ainda assim my eyes are wider than before. So little has changed, but my eyes now see much more.

E sim, ainda acontece isto: you can lose your troubled thoughts for tonight at least; your mellow and tender self, is hard to climb.

Mas... Vejo mais, com mais clareza. E consciência. E por isso, já estou de parabéns e vou celebrar. Celebrar a minha existência. Estou aqui. Agora!


Deixo-vos a letra:

Eyes Wider Than Before :
I love that distant beam of light
and (?) neon floods my weary eyes
it illuminates my soul, is inspired
I'm heading your way with the traffic
by my side
remember how it was before
just a minute away
I'll be knocking on your front door
don't underestimate, this place is tired
every second is treated as though
there is no time

Your eyes are wider than before
So little has changed
but your eyes now see much more

hush, now sway and fall asleep
gonna drive you away from the trampling of bustling feet
you can lose your troubled thoughts
for tonight at least
you can wake in the morning
feeling that you can breathe

little darling you're mine for tonight
your mellow and tender self
is hard to climb
from you, I turn all doubts deep inside
I surrender myself to your presence
and peace of mind

Your eyes are wider than before
So little has changed
but your eyes now see much more
so much more
so, so much more
so much more
so much more

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Pela hora da morte

Ai esta vida! - "Está pela hora da morte!"
O que eu fazia se tivesse mais tempo! - "O tempo? Ai, está pela hora da morte!"
E o estado deste tempo, só chuva! - "Mas a chuva é bom, se não fica tudo pela hora da morte!"

Olha e a vida? - "A vida, claro que está pela hora da morte, não vês as notícias?"

Não, eu vivo no dia-a-dia~, na vida, não na hora da morte...

domingo, 28 de outubro de 2012

Sê feliz, sê criança

 

Troca o passo, volta atrás, olha o sapato está desapertado! Não importa, corre mais, vira à esquerda, contorna a casa, assusta alguém! Ri-te, tropeça, não tenhas medo de cair. Tira os sapatos, atira-os ao ar. Foge da tua sombra, corre mais depressa, depois mais devagar. Dá um salto no ar, iça esses calcanhares e bate com os pés no chão! Sê feliz, sê criança.
 

Imagem: http://vblogue.blogspot.pt/2011/01/para-soprar-e-fazer-bolas-pequenas-e.html

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bagagem



Vejo a história da minha vida como bagagem. São várias malas que vou carregando. Às vezes pesam mais. Ainda assim, com o passar do tempo vão pesando menos. Estão em carruagens e as rodas que as suportam estão cada vez melhores. Assim vou rolando melhor, sem parar tanto no caminho.
Mas às vezes tenho de parar porque uma mala que eu achava que estava tão bem arrumadinha e tão bem fechadinha, rebenta! E instala-se o caos! Vejo roupa que já não via há anos. Sinto aquilo que devia de ter sentido quando as vesti, e assusto-me. Parece ser demais, tecido que dança à minha volta, que se mistura com as rodas e faz parar o comboio. Peça a peça, tento arrumar a mala. É um processo demorado. Terá de demorar o tempo necessário para que fique tudo arrumado e seja possível voltar a abrir com gentileza a mala, no futuro. Deixar a roupa disponível.
E quando for possível, posso voltar ao caminho ou ir um pouco mais depressa, avançando pelos carris, tendo atenção às pedras e revendo as fechaduras das malas. A manutenção destas malas é coisa importante…

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Maus tempos



Pudessem as pessoas não culpar o tempo dos sentimentos que brotam! Têm costas largas estas nuvens... É muito culpada esta humidade, e a escuridão? É por eles que estão todos assim, cinzentos.


domingo, 21 de outubro de 2012

Mudança

"A dor e o desconforto potenciam a mudança"

Apesar das aspas não me lembro se a frase era assim. Se nos dói a perna que se dobra sobre a outra, então descruzamos as pernas. A dor potencia a transição. O problema é quando permanecemos na dor porque isso parece ser mais confortável do que saltar para o desconhecido...

sábado, 6 de outubro de 2012

Estores



É que é mais fácil deixar resvalar os estores para a sombra do que fazer o esforço de os puxar para deixar entrar a luz. Deixar entrar a luz requer mais esforço, temos de fazer força, puxar, mas as consequências são bem melhores do que deixar os estores caírem na noite. Não é?



Imagem: http://www.mocambiquetrading.com/areas-de-negocios/diversos/potencial-negocio-para-fabrica-de-estores/

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Paciências

Entro na conservatória. Preciso de levantar um documento que pedi na semana passada. Tiro a senha respectiva, sento-me e vejo que, apesar de ser a próxima para levantamento de documentos, existem algumas pessoas a pedir documentos. Só estão dois guichets a funcionar. Suspiro e penso "parece que vai ser mais demorado levar o documento do que pedi-lo...".

Uma senhora está a fazer o cartão do cidadão. Fala lentamente. A senhora da conservatória pede-lhe a morada. A senhora do cartão diz calmamente "mas eu tenho duas casas". A resposta é pronta e ainda assim paciente e simpática: "Mas a senhora é que tem de me dizer qual é a morada que quer. Olhe que é a morada que fica nas finanças, na Segurança Social...". A senhora do cartão dá um código postal, optando por uma das casas. Ainda preocupada, a senhora da conservatória pergunta-lhe qual é a morada na carta de condução indicando: "Olhe que tem de ter a mesma morada na carta e no cartão do cidadão, senão, se é mandada parar é multada, porque a morada tem de coincidir!". A senhora do cartão responde um prolongado "o que é que acha". "Você é que sabe, não posso dizer qual deve ser", responde, ainda com paciência, a senhora da conservatória. A senhora do cartão opta pela morada da carta de condução. E assim avança o processo.

Eu vou assistindo calmamente, penso que tenho tempo, apesar de nunca gostar de esperar, sem nada para fazer. Começo a observar os restantes cidadãos que esperam. São três. Um casal com senhas e uma senhora com hora marcada. Começam a ficar impacientes. O casal muda de lugar e a senhora de hora marcada vai balançando a perninha enquanto reúne os seus documentos e se perde a olhar para a sua carta de condução. Talvez a fotografia fosse antiga. Não sei, não consigo ver, estou mais afastada mas consigo ver o desenrolar da história.

A seguir vem a máquina esquisita: "Agora vai se levantar, vai ali para aquela máquina e olha em frente." - explica a senhora da conservatória com aquela voz de quem diz a mesma frase várias vezes ao dia. A fotografia corre bem. De seguida é pedido à senhora do cartão que coloque os dedos indicadores na máquina esquisita. Calmamente a senhora diz que não está a funcionar. A senhora da conservatória lá se levanta do seu lugar imaculado e ajuda no processo. Não percebi o que terá acontecido, se a senhora do cartão não carregou bem ou se houve algum problema informático.

Agora estamos na recta final, o casal e a senhora da hora marcada trocam olhares e risos sobre a senhora do cartão. Afinal de contas está a demorar. Leio naqueles risos a paciência sem compaixão, de quem diz "remédio esperar, mas esta senhora é muito tonta!"

Eu observo. E agora passamos para a parte em que a senhora tem de assinar na máquina esquisita para que possa digitalizar a sua assinatura. Ela demora. Volta da máquina esquisita e senta-se novamente em frente à senhora da conservatória. A senhora do cartão diz, mal se senta:"Sabe, é que eu tenho dificuldade em assinar, tive um AVC há pouco tempo..."

E agora é a minha vez de ser atendida. Com mais compaixão.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Tesselate


Bite chunks out of me
You're a shark and I'm swimming
My heart still thumps as I bleed
And all your friends come sniffing.

Triangles are my favorite shape
Three points where two lines meet.
Toe to toe, back to back, let's go
My love it's very late.
'Til morning comes, let's tessellate.

Go alone my flower
And keep my whole lovely you.
Wild green stones alone my lover
And keep us on my heart.

Three guns and one goes off, one's empty, one's not quick enough
One burn, one red, one grin
Search the graves while the camera spins.
Chunks of you will sink down to seals
Blubber rich in mourning.
They'll nosh you up, yes they'll nosh the love away, but it's fair to say
You will still haunt me.

Triangles are my favorite shape
Three points where two lines meet.
Toe to toe, back to back, let's go
My love it's very late.
'Til morning comes, let's tessellate.

Alt - J
 

 


Imagem: http://boingboing.net/2007/03/28/katinka-matsons-late.html

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Palha em evolução


A evolução é como esta palha. Primeiro há que preparar o terreno para semear. Ver o melhor sítio e lançar as sementes à terra, num ritual de rigor. Não nos podemos esquecer que o processo não termina ali, é preciso cuidar, regar, dar atenção. Antes de ser apanhada, é bom passar por ela, passar as mãos no feno, respirá-lo já sem alergias. Quando estiver no tamanho certo e na altura certa, deve ser cortado pelo tamanho certo. De seguida temos de tratar do que foi colhido e deixar tudo enroladinho nuns lindos fardos. E depois arrumamos tudo no coração, uns em cima dos outros, mas sem se atrapalharem.

O desafio está em encontrar a altura certa para semear, o momento certo de acarinhar e regar. Encontrar a forma mais correcta de afastar as pestes e saber quando é altura de respirar para colher. Como arrumar as evoluções em nós? E enquanto arrumamos uns fardos, não se esqueçam que é preciso semear coisas novas, regar outras e tratar do celeiro...


Imagem: http://www.freestockphotos.biz/stockphoto/10079

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Cavalheirismos

Gosto de actos espontâneos de cavalheirismo. Poderia até parecer uma atitude velha mas acho que nós e os homens não somos iguais, mas tem de haver igualdade! Direitos iguais para todos e atitudes simpáticas e carinhosas para as mulheres (calma, para os homens também!). Mas não interessa isso. O que me interessa dizer é que gosto de actos de cavalheirismo. Gosto que me deixem passar primeiro. Que me abram a porta. Que me ajudem quando estou carregada. Acho um gesto bonito, principalmente porque parte de uma coisa tão simples e poderosa como ver o outro. Vê-lo e, através de uma dança de rituais do “faça favor, passe primeiro”, relevar a sua importância. É bom para ambas as partes e perpetua-se um tango que todos sabem dançar, mais passo menos passo. Pena que nem todos dancem…

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Símbolos


Shrivatsa.

É um símbolo Budista que simboliza um nó infinito, sem fim. É um sinal auspicioso. Como nada é por acaso, este símbolo apareceu-me numa taça Tibetana que adquiri recentemente. A minha primeira taça Tibetana. Quando a comprei explicaram-me o símbolo interior e o mantra que estava no exterior.

Passados dois dias apercebi-me da mensagem quando, pensando nas minhas neuroses, vi que tinha de lutar para dar continuidade na minha vida, aceitando a mudança. De não parar os processos, de não travar com base no medo, expectativa ou desconhecimento. Apenas continuar. Apercebi-me também que era uma fase em que sonhei muito com comboios, estações, plataformas, carris...

E depois lembrei-me do símbolo Shrivatsa. Da continuidade sem fim que ele apresenta. E ri-me. As respostas aparecem sempre de forma misteriosa, mas aparecem.


Imagem: http://www.goodwintools.co.uk/shrivatsa/

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Prazer


Amélie gostava de fazer ricochetes. E do barulho de partir o leite creme com a colher. Pequenos prazeres. Rebentar bolhinhas. Eu gosto de pôr os pés na areia no primeiro dia de praia do ano, faz-me sorrir. Gosto do cheiro a terra molhada das primeiras chuvas. Gosto quando chove no verão e está calor. Gosto muito de beber muita água quando tenho sede e acabar com um "ahhhh"... Gosto muito da textura do salmão crú quando se desfaz na minha boca. Adoro uma boa cerveja quando está um calor imenso. Gosto também de espremer a casca dos tremoços e atirá-los para a minha boca. Gosto das estações quentes para comer a fruta da época. Gosto do quente das castanhas no frio dos outonos. Sejam assadas ou cozidas. Ou cruas. Gosto do Natal e das luzes. Das estrelas e de vê-las nas noites quentes. Gosto do prazer de passar os grãos de areia nas mãos, como se o tempo passasse pelos meus dedos e eu o conseguisse controlar. Gosto de dançar sem rumo, sem sentido, como uma louca. Sim, gosto daquela figura de ridiculo feliz, faz-me sentir vibrante. Não gosto de correr mas gosto do tremelique que fica nas pernas depois de uma caminhada. Gosto do cheiro a verão, digo sempre que cheira a Algarve. Gosto da água do mar que me percorre quando mergulho de cabeça. Gosto de molhar os lábios e sentir o salgado quando saio do mar. Gosto dos pequenos prazeres, fazem-me viva.


Imagem: http://sarahjanespeculates.wordpress.com/2011/10/15/amelie-a-retrospective-review/

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Iliteracia?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Des-ilusão

Desilusão: s. f., 1. .Decepção. 2. Desengano


Des-ilusão: Quando a ilusão é descorberta, despida, encontrada.


É fácil encontrar a ilusão ao longo da vida. Já ouvi muitas pessoas referirem-se a ilusões como olhar para algo com uns óculos cor-de-rosa. Achei romântico. Mas as ilusões e as desilusões não são românticas. São sarcásticas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Meandros meus, voltas tuas




"Isto às vezes tem de ser como os meandros dos rios, damos umas voltas valentes quando podíamos ir logo em frente! Mas se fossemos logo em frente, não aprendíamos aquilo que aprendemos quando andamos às voltas!" - A criança anuiu quando ouviu o avô dizer estas palavras que pareciam ser sábias, julgava ela. Sentia-se jovem e desculpava-se com a sua juventude para não ter de entender as sabedorias dos mais velhos. Em relação à explicação dos rios, e apesar de ter anuído ao avô, a criança continuava a achar que era tonto andar às voltas.


Imagem: http://meandros.wordpress.com/

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Salta


Salta o coração, lá vai ele disparado outra vez. Parece que nem faz parte deste corpo velho, obsoleto! Mas quem disse que ser velho é não ter amor, não ter coração?! Ah o meu coração pula todos os dias. Acorda de rompante, salta da cama antes de mim e diz-me para irmos, depressa! e eu tenho de o seguir... Este coração não quer perder nem mais um dia! Quer fazer de tudo para pular todos os dias antes que se canse de vez. Parece que este meu coração tem medo de morrer, mas eu cá acho que ele perdeu foi o medo de viver!


Imagem: http://ohbpost.blogspot.pt/2010/04/certezas-e-verdades-sobre-mim.html

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vidas-novas-vidas

O dia em que íamos comprar os livros era um dia de festa. Se nesse ano pudesse comprar um estojo novo ou até uma nova mochila, era o êxtase completo. Mas atenção: naquele tempo só se compravam coisas novas quando as velhas se estragavam.

Voltando aos livros. O cheiro dos livros escolares novos, lembram-se? Ficava ansiosa para chegar a casa e poder folheá-los. Queria logo escrever o meu nome para que ficasse estabelecido que aqueles eram os meus livros. E depois chegava o doce momento de os forrar. Lembro-me de um papel transparente com umas folhas ou flores verdes. Engraçado como os papéis de forrar livros evoluíram. Este das flores ou das folhas, não era autocolante, isso surgiu bem mais tarde. Este era colado com fita-cola e não era eu que forrava os livros, ainda não tinha muito jeito para isso, se é que alguma vez o tive!

Lembro-me do longo processo de escolha das canetas que iam figurar no estojo. Era um processo lento e complicado. tinha de escrever o meu nome completo com todas as minhas canetas e fazer uma escolha. Ah, e este processo de escolha era organizado por cores. Queria uma caneta de cada cor, então pegava em todas as canetas de determinada cor e escrevia para seleccionar a que mais me agradava. E eu tinha muitas canetas, muitas mesmo.

E toda esta magia acontecia um mês ou mais, antes da escola começar. Em criança senti muitas vezes esta ansiedade. Entretanto saiam os horários e as turmas. como andei numa escola pequena, as turmas não eram novidade, mas os horários sim. Sabendo o horário, lá ia eu para casa escrever o horário naqueles papelinhos que davam na papelaria. Mais tarde já se fazia em excel e imprimia-se, mas isso foi muito mais tarde! Escrevia o horário em tantos sítios que passado pouco tempo já o sabia de cor. enquanto o fazia magicava sobre o novo ano lectivo. Quem iam ser os professores? O que iria fazer nas tardes livres? Será que íamos ter muitas visitas de estudo?

O voltar à escola era muito mais do que esse simples movimento. Era todo um sonhar acordado, um planear desmedido. Era bom e é um facto que essa sensação de renovação ainda me acompanha nesta altura do ano...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O terapeuta, mestre da grande orquestra




Não sabia como explicar o que ia fazer. Então lembrei-me. O terapeuta é como um maestro que acompanha uma grande orquestra. Essa orquestra é composta por vários instrumentos que às vezes desafinam e a pessoa, essa orquestra, começa a destoar. A pessoa sente que algo está a soar mal mas a princípio não sabe qual dos instrumentos está desafinado. Existem tantas possibilidades. Alguns instrumentos nem parecem importantes, mas quando começam a destoar dos outros, mostram a sua importância.
Mas o maestro não afina os instrumentos. E também não diz directamente à orquestra qual é o elemento que precisa de mais atenção. Cabe à pessoa, grande orquestra, a percepção daquilo que a compõe. Cabe à pessoa saber que instrumentos existem nela, quais são os que desafinam e quais são os que, tal como recursos, permitem que os desafinados sigam o fio condutor.
Se calhar o maestro só dá aos braços. Ou então apenas mostra a sua presença e aponta discretamente com a sua batuta para alguns instrumentos mais indisciplinados. Mas no fim, caberá sempre à orquestra a auto-regulação, ou seja, a afinação completa para que todo o seu movimento seja de uma fluidez agradável ao ouvido…

terça-feira, 17 de julho de 2012

School of life

The school of life offers some difficult courses, but it is in the difficult class that one learns the most.

~ Corrie ten Boom

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Eu, esquizo-frenética, me assumo


Conclui que sou esquizo-frenética, o que não tem nada a ver com esquizofrenia. Antes de mais, ainda bem, até porque a esquizofrenia é uma doença grave, daquelas que ninguém quer ter, acreditem. Vamos por partes. Antes de mais o termo: esquizo ou esquizoide. No dicionário dizem que esquizo é um elemento que exprime divisão, desagregação. Já esquizoide remete para um estado mental de predisposição para a esquizofrenia.
No sítio onde estudo, e daí nasce a criação desta minha “palavra”, esquizoide remete para uma pessoa marcadamente mental. Uma pessoa que passa a vida ausente dos outros, vivendo dentro de si. É uma pessoa tendencialmente criativa, com muitas ideias e que vive nos seus pensamentos.
Como boa mescla que sou, é óbvio que sou um bocado esquizoide. Mas vai mais além. A última prova traduziu-se na tal caracterização de esquizo-frenético. Pois que, ao ler um livro cuja história não me agarre, esta bela-mente voa. E enquanto lê (efectivamente estou a ler, palavra após palavra), a bela-mente pensa no que vai fazer para almoçar amanhã e, ao mesmo tempo, vê imagens de qualquer coisa que viu sabe-se lá onde. E tudo isto sem nunca se desligar do que está à roda dela, observando e ouvindo todos os detalhes. Pensam vocês, essa bela-mente está louca, só pode. Pois está, o problema é que muitos de vocês se calhar reveem-se nesta descrição… Eu já desisti de ler livros que não me consigo envolver… Não por causa de mim, mas por causa da bela-mente.
Os pensamentos são frenéticos e velozes, as imagens também. Tudo é um relâmpago, as viagens são enormes e as ligações que faço fazem-me rir comigo mesma. Nunca vos aconteceu ver uma coisa, imaginem, ver uma formiga. Essa formiga faz-vos pensar na infância, aquele dia em que fizeram um passeio. Nesse dia foram passear com um avô. Pensar em avô, que é feito da minha prima? Ela vivia em Lisboa. Lisboa! Tenho de ver se vou encher o depósito do carro que amanhã tenho de lá ir. Bolas, deixei o carro mal estacionado! Não, espera, isso foi ontem. Hoje está bem, ficou ao lado do carro do vizinho do prédio ao lado, eu sabia o nome dele…
E é isto… mas em alta velocidade…
Sou então esquizo-frenética, e acreditem que estou em recuperação. Pode ser que um dia seja possível fundar um grupo de apoio aos esquizo-frenéticos. Apoio, sim, mas sem cura, que eu gosto de ser assim!
Imagem: http://insustentavelbelezadosseres.blogspot.pt/2010/11/grande-negociata-do-governo-com-os.html

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lembranças



Encontrei esta foto numa rede social. E sei que já estive aqui. Bom, acho que estive aqui. Saltei dali do fundo para a água. E lembro-me de estar deitada na água, com as pedrinhas redondinhas debaixo de mim. Foi numa visita de estudo, foi isso. E o que fomos ver mais? Se calhar foi daquela vez em que também passamos em Évora e vimos o Templo de Diana do autocarro. E uns menires?

E eu levei fato de banho? Havia gente vestida... Engraçadas estas memórias que não estão cá, mas que viajam connosco. Não sabia que tinha estado ali até o ali me aparecer na forma de uma fotografia. Então, o que é real naquilo que sabemos num dado momento? Até onde vai a memória do inconsciente que carrega aquilo que não nos lembramos?

Foto de Ana Fabião, retirada de: http://www.facebook.com/#!/Pulo.do.Lobo

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ciclos?


A conversa tinha começado como qualquer conversa começa nos tempos modernos: o tempo já não é o que era. O verão que não chega, o frio que se sente em Julho, enfim, os casos típicos. E, claro, o tempo passa rápido. Embora parecesse desinteressada, o coração dela estava aos saltos, podia senti-lo a vibrar de excitação. Não era para menos, o destino tinha sido bondoso. E então ela disse de forma muito triste: "Sabes, às vezes sinto medo por me sentir feliz. Porque sei que passa, que é temporário e que mais tarde ou mais cedo vou cair no abismo da tristeza." Estas palavras entraram em mim como uma onda e o barulho das ondas a rebentar na areia acabou por aumentar a dimensão da vaga. Não me defendi delas e também não o queria fazer. Embora pudesse melhorar o pessimismo que lhe corria no sangue, sabia que ela tinha razão. Sem grande força para a contrariar apenas disse: "Merda dos ciclos..." E sabíamos que não havia mais a acrescentar, por isso o silêncio tomou conta do ambiente e ela fingiu ter adormecido naquele sol frio de verão.


Imagem: http://www.umateladearco-irismargemsultejo2.blogspot.pt/

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Imaginando

"O céu estava fechado, um céu de Dezembro e o chão das ruas escondia-se debaixo da neve. Neve de Londres meio derretida e lamacenta."
"O Guinéu da Órfã" - Charles Dickens


E lá vou, vou a voar na imaginação e vejo o cenário, a neve lamacenta. Sinto o frio daquele Dezembro no algum calor deste Julho ventoso. Vou daqui para o norte, aterro em Londres e sinto tudo a acontecer à minha volta. Quis a minha imaginação ser assim. Leio as palavras e elas deixam de existir. Fundem-se nas imagens que crio, fixam-se em mim e eu danço com elas. Deixo de estar a ler um livro para viver uma história, abraçar as personagens e passear por outras épocas, sentindo outros pulsares, outras vidas e outras possibilidades. Ah mas nem todos os livros têm esse dom! Mas quando há uma raridade que o tem, eu sigo com ele até ao fim do mundo, e olhem que às vezes demoro a voltar.

sábado, 30 de junho de 2012

Ah!


Ah, o doce som de algo concluído, de algo já ido, fluído e mais que definido. Passou, sarou e seguiu viagem. Desarmou, desfez as malas da ingratidão e pulou de alegria. Ficou-se o prazo, o mau estado, o arreliado. E nós vamos, em frente, deixando roupa para trás, a caminho da nossa nudez, nossa verdade, nosso interior, seja ele qual for. É o meu, é o teu, são os caminhos, as escolhas, os sentidos, as alegrias de se saber ser e de nos lembrarmos humanos. Sem ficar à espreita, sigo em frente, sem medo dos lados, sem tropeçar enquanto salto de alegria. Ah, o alívio. O alívio é uma sensação de vazio que conforta o meu interior. O alívio é o que preenche o vazio. O alívio invadiu-me de nadas, de penas que nada pesam e de vazios. É o silêncio, é o não nas palavras, o não saber, sabendo que sei. Viajo nesta loucura eu sei. Mas vai daí, o normal não existe!

Imagem: http://de-olhar.blogspot.pt/2010/10/por-uma-pena.html

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Up and Down

Que a vida é feita de pequenos nadas, já tinha ouvido dizer... O que percebi há algum tempo é que andamos aos altos e baixos. Apercebo-me hoje que a felicidade é fazer diminuir a amplitude entre os picos. Muito confuso? Ora bem... No sentido evolutivo da coisa, enquanto nos conhecemos melhor e nos tornamos mais em contacto connosco, com a essência ou com a alma (como lhe quiserem chamar...), tendemos a ter um equilíbrio na nossa serenidade. Não, não é ficar com aquele ar meio morto... É ter uma energia serena, de força e de paz. E aqui vêm as ondas. Somos humanos. Logo, vamos ter sempre momentos melhores e momentos piores (ou como eu costumo dizer, não sou Buda...).


Aquilo que interessa é que o tempo que passamos nos momentos piores seja encurtado. Logo, não descemos tanto nestas curvas em direcção à tristeza absoluta. Aceitamos a descida, sentimos o movimento do sentimento que vem do ventre, deixamos que se transforme nessa emoção agonizante que sai pela garganta, tratamos da sua origem (ou tentamos, é o que se pede, não é?) e esperamos. E pode ser que da próxima vez que a tristeza ou o medo nos batam à porta nós possamos ter mais instrumentos para coordenar a orquestra. Quem sabe se em vez do caos sai alguma ária? Já compus belas árias enquanto subia na curva... Só eu é que as oiço, mas gosto tanto delas. Foram compostas a pulso!

Depois, interessa viver os momentos altos no agora, com presença e verdadeiramente conectados connosco. Sem histeria, sem extravasar e sem ficar louco a perspectivar o pico seguinte. Aproveitamos sabiamente o prazer indistinto que advém da orquestra mais afinada, acedemos a nós num impulso de sabedoria! Mas sem nos perdermos no espaço...

E assim diminuem as amplitudes entre os picos... Não quer é dizer que seja fácil de fazer, isso é outra história, ou outra música... E é uma história de uma vida, uma banda sonora inteira.

Imagem: http://mistressmaddie.blogspot.pt/2011/11/mixed-bag-of-ups-and-downs.html

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Fazer a diferença

Fazer a diferença. Frase engraçada. Mais engraçado ouvir perfeitamente o que aqueles idiotas diziam: somos nós que fazemos a diferença! Astuto, mas insuficiente. Para mim, pelo menos. Via-me mais pomposo naquela altura. Estava de fraque, o mundo estava aos meus pés e eu não fazia parte de nenhum "nós". Fazer a diferença, pfff.

Passados muitos anos a frase bate-me de frente, acerta-me no peito e faz-me cair. E olhem que o chão da vergonha é duro, a queda é aparatosa. Artística, diria eu. Fazer a diferença. Não tinha feito a diferença na minha vida até aquele momento, e agora não era o fraque que me ia salvar. Era eu. Tinha de ser. Tinha de fazer a diferença. Era assim que tinha a possibilidade de me reerguer. Voltar a conseguir respirar fundo de uma forma aliviada era o meu objectivo secreto. Era a primeira diferença que eu queria fazer para mim. E assim que estivesse de pé e com forças, a primeira coisa que ia fazer era queimar o fraque. O snobismo nunca foi o meu melhor lado.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Ressoando



Vi que ela estava mesmo a prestar-me atenção e então continuei todo pomposo com o meu discurso: "Mais vale ir devagar para chegar inteiro do que ir perdendo partes de nós pelo caminho, com a velocidade!" Já não era uma guerra de palavras, tratava-se apenas da necessidade de encontrar um entendimento para a dor que ela sentia. Talvez tenha apaziguado o sentimento de tristeza, mas a dor tinha se transformado em sofrimento e a partir daqui a viagem era dela e não minha.

Alguma parte da dor ficou comigo, mas eu não o queria verbalizar. Não queria admitir que a situação ressoava em mim como nunca poderia ter sequer imaginado. Mas a dor aumentava com a minha tentativa de a calar. Respirei. Senti que era assim mesmo. Agora fazia parte do trabalho trazer algo que não sendo meu, se tornava minha pertença.

domingo, 3 de junho de 2012

Dou um passo





Dou um passo e páro à escuta. Quem me dera que estivesse aqui alguém comigo. Oiço os murmúrios e penso que tenho dar o passo seguinte, não posso ficar aqui parado. Avanço. O medo não é menor, mas a força cresceu. Avanço.

Imagem: http://super-ligados.blogspot.pt/2010/06/curiosidades-sobre-os-pes.html

sábado, 26 de maio de 2012

Afect(o)ar


Afecto, s. m. Amor, afeição, paixão. 1. Afeiçoado.
Afectar, v. t. 1. Fingir, simular. 2. Atingir, aplicar, ter influência sobre.

O problema nasce, não quando não sabemos se alguém nos afecta ou nutre afecto, mas quando nos afectamos por não permitir o afecto. Afectem-se uns aos outros, com o vosso afecto, mas não se esqueçam de se afeiçoarem a vocês mesmos.


Imagem: http://www.tumblr.com/tagged/satc?before=1306904406


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Monólogos

"Quem és tu?"- perguntou ela assertivamente. A resposta veio na forma de silêncio. Aguardou um pouco na eminência de uma possível resposta. O silêncio fez-lhe perguntar novamente. E mais uma vez nada aconteceu senão o eco a difundir-se pelo espaço que a rodeava.

Tentou ser mais meiga na voz para ver se assim obtinha alguma resposta. Assim tentou uma e outra vez. Aclarou a voz num pigarreado para que soasse de um modo suave e acolhedor. E nada. Impaciente berrou: "QUEM ÉS TU???". Como se este berro tivesse trazido mais silêncio à sala, ela continuava sem respostas. E foi quando parou de perguntar que obteve a resposta que precisava.

Sabes quem és? Já percorreste os teus próprios labirintos para saber? Pesquisaste por detrás de todos os ramos que te inundam a mente? Viste em todos os cantos escuros que não queres visitar? Entre os dedos dos pés, na palma da mão que apertas contra o teu peito, nas radiografias dos amores já idos...

Encontraste-te? Procuraste por ti e perguntaste dentro de ti, de fotografia na mão: "Viram esta Pessoa?". Olhaste à tua volta para te encontrar nos outros? Seguiste os teus passos para encontrar a origem de tudo?

Reconheces-te? Consegues ver para além da fotografia que guardas junto ao peito? Será tu mais do que uma imagem captada, guardada e mal pronunciada nos álbuns de ti mesmo? Onde estão esses álbuns? E que estantes são essas que te seguram para viveres?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Livre


Livre: 1. Que tem liberdade. 2. Que não é dependente, independente. 3. Que não está captivo, solto. 4. Disponível. 5. Absolvido, inocentado. 6. Que não é casado. 7. Espontâneo.

Livro: Ser livre.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Actually...

Prime Minister: Whenever I get gloomy with the state of the world, I think about the arrivals gate at Heathrow Airport. General opinion's starting to make out that we live in a world of hatred and greed, but I don't see that. It seems to me that love is everywhere. Often, it's not particularly dignified or newsworthy, but it's always there - fathers and sons, mothers and daughters, husbands and wives, boyfriends, girlfriends, old friends. When the planes hit the Twin Towers, as far as I know, none of the phone calls from the people on board were messages of hate or revenge - they were all messages of love. If you look for it, I've got a sneaking suspicion... love actually is all around.

From the movie "Love Actually"...

Livros

Escrevemos um livro enquanto nos conhecemos melhor. Não há introdução que resista enquanto passamos o pano pelos capítulos vindouros.

Em algum momento surgirá um sentimento ambiguo: o livro estará terminado quando eu morrer. Esse será o ponto final, será assim que o livro da nossa vida termina. Parece inglório, tanto esforço a escrever um livro e depois não só não sabemos o fim, como não o vamos escrever.

Possamos nós aproveitar os capítulos. Viver as linhas e dançar nas letras. Descer páginas e lamber as folhas. Descansar no marcador dos livros e saber ler em diferentes ritmos.

E viver assim é escrever nas entrlinhas para que alguém possa tentar ler.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Quanto tempo falta para as 3:15h?



Sái de mansinho, sem ninguém dar por ele. Na realidade ele quer lá saber das horas. Para ele as horas não existem! A leveza do tempo é toda dele, não há amanhãs, os ontens então, mandou-os passear. Fosse eu um gato sem calendário. Sem saber as horas. Aliás, nunca vi um gato com relógio, nem de pulso, nem de parede. Soubesse eu o que não é um relógio, pudesse eu fitar os ponteiros com admiração para perguntar o que são.

Deita-se no jardim, lava-se pacientemente e com mestria. Só desvia a sua atenção porque ouve um pássaro. Mas lentamente volta para a sua tarefa. É uma tarefa sem dor. Sem obrigação e sem tempo limite. Ele impõe as regras e não as segue propositadamente.

Fosse eu um gato.


Imagem: http://indulgy.com/post/2gFQEDEf41/linen-wall-hanging#/do/from/70955957588


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Porque muitos não sabem nem sonham, 25 de Abril, sempre!


Houve um dia em que se lutou por um país melhor. Houve um dia em que se lutou sem violência, com flores e com a mão dada ao outro que estava ao nosso lado, desconhecido e com orgulho de ser português.

Houve um dia em que tudo mudou porque tinha de mudar. Porque tinha de haver Liberdade. Pão. Educação. Porque isso não havia. Não havia e convém lembrar porque este país é feito de memória curta.

As mulheres não votavam. Sabiam? Eu tenho menos de 38 anos e sei. Voto desde que tenho idade para votar. Sou mulher e voto. É um direito adquirido e eu orgulho-me em dizer: nunca falhei quando o dever me chama a uma mesa de voto. Sem esperança nos últimos anos, é verdade. Mas eu vou. Porque foi esse o instrumento que me deram há 38 anos! 

Sabem o que é que também havia antes da Revolução? Censura! Sem esta liberdade não podíamos escrever o que queremos nem ler o que desejamos, hoje  ninguém me passa o lápis azul! 

E sabem que só existia um partido, a União Nacional e que todos os outros foram votados à ilegalidade? E que uma mulher casada não podia viajar para fora do país sem o consentimento do marido? E que, de uma forma absurda, não era permitido jogar às cartas nos comboios? Ou ainda pior e com consequências graves, três pessoas à conversa na rua era considerado um perigo? Pois, era um ajuntamento!

Se tudo ficou perfeito? Claro que não. Mas por isso é que eles começaram a revolução, nós temos de a continuar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Falta-me o avô

O meu avô faz-me falta. Que me perdoem os outros que também fazem falta, mas há um que falta mais. Falta quando estou triste e quero um sorriso. Falta quando estou feliz porque quero um reconhecimento. Também falta quando tenho dúvidas pois a sua sabedoria sempre me deu as respostas certas.

Lembro-me de um desgosto amoroso, e das palavras sábias do meu avô perante a minha tristeza: "Ainda és nova, ainda vais ter muitos namorados, e melhores! Que te tratem bem." Isto dito por um homem da velha guarda, mas a modernidade é sempre necessária quando se conforta a neta num momento de sofrimento.

Tudo era simples. As respostas que ele me dava eram simples, embora por vezes eu colocasse as perguntas mais difíceis. Lembro-me de ser muito pequena e estar na rua com ele e perguntar: "onde estamos avô?" Ele dizia que estávamos na Praia Grande. E eu impaciente, dizia: "eu sei, não é isso! Estamos no Porto? Em Lisboa?" Ele lá explicou a geografia da coisa, da Praia Grande a Portugal. E depois quis o destino que eu estudasse Geografia.

Lembro-me de o ver no hospital depois de uma entrevista de emprego e de lhe dizer que ia começar a trabalhar "a sério". E lembro-me muito bem da cara dele, de orgulho, ali deitado. Quis a vida, matreira, que ele fosse chamado antes de eu começar noutras pegadas da vida que o teriam deixado orgulhoso. Quis a vida que ele abalasse antes que eu lhe pudesse perguntar sobre o futuro. Como acho que me vês pelos olhos do meu gato, eu pergunto na mesma, já as respostas... Deixaste-as em mim.

sábado, 21 de abril de 2012

Um mar de distância


Atravesso o Pacífico à tua procura. Apesar do nome do oceano, a serenidade não abunda. O sentimento de ansiedade é tão grande como a própria viagem. Busco-te. Atravesso o oceano, faço milhas náuticas para te ver. Houvesse dinheiro para aviões e eu voava para ti. Quanto mais perto estou, mais longe te sinto. E uma profunda solidão atravessa o meu peito.

As ondas batem no barco como o meu coração bate no peito, quer galgar até à garganta e deixa-me sem voz. Essa, aliás, transformou-se num murmúrio desde que foste embora. Tento gritar no convés, o palco da minha vida e não consigo. Afogo-me nas lágrimas com sabor a maresia e espero para ver terra. Nunca eu queria tanto ter o mar pelas costas.

Afundo-me com a âncora ao chegar ao porto. Procuro a tua cara e não te vejo. Milhares de caras passam por mim e não encontro a tua. O desespero avassalador quase me mata quando vejo que o tempo passa e que tu não estás lá. E agora aqui estou, na tua terra estranha, e não te vendo, percebo que nunca te tive.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Escrever avó

As letras fazem palavras que fazem frutos. Como uma árvore com ramos para cima, o meu papel avança para baixo. Linha após linha, a escrita floreia a minha paisagem, ondula ao vento das minhas vontades. Avanço ao sabor da estação que me rege no momento, seja o calor ou o frio.

Escrevo, reescrevo. Tomo nota. Risco. Saboreio o papel, o meu alimento. Viro a folha, escolho outra caneta. Apresso-me num vermelho de um tom que lembra o baton da minha avó. E vou por aí. A avó. Sim, era como uma árvore. Raizes fixas. Quem eras tu? Quanto de ti está em mim, o que me dizes de ti que sou eu? E ao ver-te, reparo que não usavas baton. Mas vejo a árvore, vejo a origem, o caminho, a dor e o desamor. E a força. Fica a força. E vai-se a vontade...

É esta a escrita que envolve a alma, avança, recua e leva-nos a passados que não existem. Imagens que não o eram. Palavras que não se traduzem em imagens. Fica a imaginação. Fica o tremor no dedo. É o deixar ir e não saber como se vai voltar...

Imagem: http://indulgy.com/post/XKCOyV3SF1/wall-hanging#/do/from/70955957588