sexta-feira, 18 de julho de 2014

Mudar de vida



Há uma música de António Variações que não me sai da cabeça, e é a versão dos Humanos. A letra reza assim:

Muda de vida, se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar!
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti é de outro jeito
Ver-te sorrir, eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens que ser assim
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens que ser assim
Olha que a vida não
Não é nem deve ser
Como um castigo que
Tu terás que viver
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti é de outro jeito

E na minha cabeça reza também uma frase que o Ricky Gervais costuma publicar no facebook às segundas: remember, it's not mondays that suck, it's your life.

E com um cenário de crise onde tudo é impossível e o medo é um bicho papão que nos come vivos a cada pensamento de risco, aqui andamos, a pular entre ideias e "ses" e a permitir que o tempo passe e que nada mude. Temos medo, e esse bicho consome-nos e trava os nossos ideais. Faz-nos duvidar de nós próprios, das nossas capacidades e faz-nos também esquecer as nossas necessidades, os nossos desejos e a vontade de mudar.

Talvez tenha chegado o momento de mudar, arriscar e perseguir sonhos que vivem aprisionados pelo medo. Mas vai daí, e se a vida terminar amanhã? O que é que eu levo? E como posso eu pesar os pratos nestas balanças onde o medo invalida os resultados?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Responsabilidades

Às vezes a minha vida parece uma novela da TVI, apenas acredito que não sou digna da estação de Queluz porque não existem gémeos na minha vida. Todo o processo de estar grávida (e ainda não chegou o P-day) dava para um livro com alguns capítulos consideráveis. Se a isto juntarmos toda uma série de gente descompensada à minha volta e uma médica com uma brevidade de foguetão... As consultas andam pelos 5/10 minutos e as respostas são mais evasivas do que as minhas respostas ao exame de filosofia do 12º ano. A única diferença é que nessa altura era mais certinha e seguia mais à risca o que me diziam. Amén à maturidade, que vai crescendo connosco e que nos permite também ser mais responsáveis por nós. E assim sendo, mesmo que nos digam alhos, nós podemos ir procurar a resposta para bugalhos e assim adaptar para nós a melhor forma de evitar uma grande... alhada.

E por alhada não quero dizer problema ou dificuldade. Por alhada, neste contexto, é ficar no nosso canto, sem tomar proactivamente conta da nossa vida, ou seja, sem tomar a responsabilidade pelas nossas decisões. E cada vez mais acho que é esse o desafio terapêutico de muito boa gente neste país. Sei que parece que apenas venho aqui dar uns bitaites zangados, mas acreditem em mim quando vos digo que escrevo isto sem zanga, mas ainda com alguma frustração. As pessoas vivem na queixa, e eu, já bem redonda, estou sem paciência para a queixa dos outros. Acredito que muito do processo evolutivo passa pela responsabilização das pessoas em relação às suas vidas, à aceitação de que têm um papel central na sua vida e que podem fazer mais por si mesmas, arriscando e indo mais além. Desresponzabilizar-se é ficar longe das teias do medo e da dúvida, e eu entendo isso, mas às vezes é preciso arriscar e mandar abaixo uma parede pois existem janelas que não deixam passar muita luz...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mantra do ano: entregar e confiar.





No outro dia fiz um teste ao meu equilíbrio, mesmo gravidissima, e fiz aqueles exercícios de alongamento em que puxamos o joelho para cima e nos equilibramos com o pé que fica em contacto com o chão. Depois, e sem colocar o pé malabarista no solo, passei-o para trás, dobrando o joelho e deixando o calcanhar tocar o rabiosque. Repeti a proeza com a outra perna. Quem estava comigo ficou impressionado com o meu equilíbrio, pois não pestanejei nem balancei e fiz tudo sem um saltinho para voltar ao sítio. Eu achei o máximo, pois se há coisa que achei que nunca seria, era equilibrista. E hoje percebi: eu tenho mais equilíbrio do que penso. E o meu corpo já o sabe, a mente é que ainda não tinha percebido.


A mente, essa malandra, também sempre achou que eu era super saudável, porque tinha de ser. Simplesmente porque não podia falhar. O corpo sempre acompanhou e sempre fui saudável. Mas sempre pensei, no lado terapêutico da coisa, em que esta vontade de ser saudável seria se calhar forçada pelo lado da mente e que qualquer dia tinha uma surpresa para aprender que as meninas perfeitinhas e bem comportadas também ficam doentes. Doentes à séria. O que aconteceu foi que aprendi que o corpo está bem quando a mente se aquieta, e que a mente se aquieta quando o corpo está bem. O corpo sabia, a mente também, só não sabiam que ambos sabiam, qual novela mexicana.

Ao longo dos últimos meses comprovei que há um tema gigantesco na minha vida: lidar com os outros. E aqui podemos remeter para a questão dos limites, já exposta no Blog; das relações e das expectativas e decepções em relação aos outros. Ora, num momento em que só vemos coisas estranhas a acontecerem, têm sido períodos conturbados. E não falo só de situações pessoais. Falo daquelas pessoas que fazem grandes asneiras na estrada e acham que têm razão; pessoas que cometem crimes e são aplaudidas à chegada ao tribunal; homens que matam as suas mulheres porque têm um sentimento de posse irrevogável; a política, que me desafina; os poderosos porque têm o rei na barriga; e todo um sistema financeiro caquéctico e irrenovável. Tudo isto me afecta no sentido em que mina as minhas visões de futuro. Não sou pessoa de ter grandes sonhos para o futuro, a não ser o de ser feliz. E este, parecendo único e simples engloba muita coisa. Claramente que o que eu resumi acaba por influir e minar a minha ideia de felicidade, mas depois lembrei-me: são tudo factores externos. Aprendi que a nossa ideia de felicidade deve depender apenas das nossas concepções internas, e não do que ocorre no exterior.

São três lições que encaixei hoje. Ou melhor, a primeira encaixei, a segunda vai indo, a terceira tem tempo! Mas há um sumo a retirar destas três frases: devemos confiar mais em nós e na nossa capacidade de conseguir chegar a algum lado, seja esse lado o que for. E já não é a primeira vez este ano que eu percebo que este ano é assim: entregar e confiar.

Imagem: http://pginasdeamor.blogspot.pt/2010/07/alongamento-basico-para-ensaios.html

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Futebol Psicossomático


Com a derrota de ontem, vi surgirem, como aliás já é moda, muitos comentários de adeptos de outros clubes que não o Benfica e que eram claramente para vilipendiar o glorioso. Antes de continuar quero apenas esclarecer que não gosto de futebol, mas gosto do Benfica. É uma mística, uma energia familiar, algo que tenho muito orgulho em partilhar com vários elementos da família e que não se explica, sente-se. Para além de ser Benfiquista, não gosto de injustiças nem de ver os jogos (fico enervada, que querem?). Ah, se calhar é melhor também acrescentar que apesar de não gostar de futebol, mas gostar do Benfica, percebo efectivamente um pouco de futebol (sim, sei ver quando há um fora de jogo, acho que isso me eleva a uma connaisseur). E então, quando vejo penaltis não marcados, malta à bulha nas 4 linhas e fora delas, desisto de ver o jogo e vou fazer qualquer outra coisa com melhores energias.

Colocando assim esta breve introdução, venho então falar sobre aquelas pessoas que, sendo adeptos de outros clubes, deliram com as derrotas dos seus adversários, ainda que sejam noutras ligas que não as suas. E aqui também existem Benfiquistas, claro, estas pessoas existem em todo o lado. É como as famílias, ninguém tem uma perfeita.

Na minha opinião terapêutica, vejo de antemão uma pessoa que se alegra com a tristeza dos outros, e isto já poderá dizer muito sobre os seus princípios e o seu modus operandi. De facto, parece-me que existem motivos psicológicos por detrás desta temática que, com um pouco de compaixão, nos pode permitir entender estas pobres almas e, quiçá, perdoar as tonterias que dizem. Aparentemente, a sua sensação de felicidade ou de satisfação prende-se com a insatisfação ou a dor dos outros, algo que até pode parecer meio psicopático. Ou apenas muito triste.

No fundo, esta tentativa de melindrar o outro quando ele está em baixo é não só um acto de cobardia como também uma demonstração de que existe uma enorme tristeza nessa pessoa que acaba por ser catapultada para o exterior numa forma jocosa. E a tristeza, não sei se sabem, mas é a base de muitas sensações de raiva.

Ora aqui reside o nosso busilis: a expressão da raiva não é algo que possa ser feito de forma construtiva na sociedade moderna, e ainda menos na sociedade portuguesa onde se prega o fado e o "come e cala". Assim sendo, como não é possível expressar a raiva que nos assola no dia a dia, seja com gritos, esperneando ou ameaçando alguém de pancada (não fica bem...), vamos engolindo essas sensações. E aqui entra a psicossomatização. Se estas sensações não saem, elas, em forma de energia, vão assolar outras partes do nosso corpo e podem ser encontradas nas pedras na vesícula, problemas de fígado, ou até mesmo num excesso de tensão no maxilar. Neste último podemos ver os seus resultados com a sensilibidade dentária (perdemos o esmalte com a força que fazemos com os dentes) ou com as constantes dores no maxilar de tanta força que fazemos.

Caso o problema seja verbal, ou seja, caso estejamos a viver uma situação em que queremos expressar vocalmente a nossa raiva e não podemos, então os sintomas somáticos podem surgir a nível da garganta. Sim, é aquela sensação de uma bola, que não sobe nem desce. Mas também pode ser dor de garganta, amígdalas inflamadas ou uma constipação que aparece por magia.

Quando se fala de somatização, fala-se também de responsabilidade pela doença que surge. Fomos nós que a criámos. É claro que possivelmente muitos de vocês leram o que escrevi e pensaram que é tudo um monte de treta. E é, de facto, para quem, como bom Português gosta de se desresponsabilizar pelo seu corpo, por si e pelo seu pais, algo que tem sido tão visível.

Por isso, meus caros, quando a vossa equipa perder, deitem isso cá para fora, porque deitar em forma de vilipêndio para os adversários de outras ligas pode ser pior... Pela vossa saúde!

Imagem: http://blogs.estadao.com.br/cristina-padiglione/premiere-futebol-clube-fecha-ano-abaixo-das-metas/

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os cursos de preparação para o parto

Quando cheguei ao segundo trimestre de gravidez, comecei calmamente à procura de cursos de preparação para o parto. Verifiquei alguns pontos em comum, nomeadamente o início, que seria pelas 28/30 semanas e o preço, sempre perto dos 200€. As aulas teriam sempre uma regularidade semanal e as diferenças entre os cursos versavam sobre detalhes relacionados com o conteúdo, a existência de aulas de pós-parto, entre outros.

Entretanto, numa visita à Prenatal (qual é a grávida que não passa lá?), inscrevemo-nos em dois mini-cursos de uma hora cada, completamente gratuitos, um que ocorreu nesta altura, e o segundo aos 7 meses. Devo confessar que não tinha grandes expectativas e fui alegremente bafejada por bons conselhos, embora curtos, que me permitiram pesquisar mais informação, sem medos e já com algumas bases. Tratou-se de um curso básico e breve mas com indicações precisas que me permitiram por exemplo, começar a pensar na mala de maternidade e noutros detalhes que tendencialmente deixamos para mais tarde. Assim a ideia foi-se implantando, com calma e sem stress. E penso que esta foi uma das coisas que gerimos bem: a informação que nos chega. Não é preciso entrar em pânico, temos muitos meses pela frente para ir lendo e procurando a informação mais acertada, sem stress.

Ainda durante o segundo trimestre, surgiu a oportunidade de fazer um curso de preparação para o parto com uma Doula. Este seria num regime intensivo (3 dias inteiros) e num registo diferente, mais associado ao parto humanizado. Lançamo-nos a este curso com bastante vontade e foi de facto revelador. Confesso que também foi muito bom o facto de ter sido cedo, pois isso permitiu encaixar melhor toda a informação que recebemos de jorro em apenas 3 dias.

Tanto eu e o meu marido temos algo que considero uma grande qualidade: ouvimos e lemos várias coisas, digerimos, debatemos os dois e tiramos as nossas conclusões. Desta forma foi possível encontrar o nosso equilíbrio sobre a nossa própria preparação como indivíduos para esse momento transitório e transformador como o parto. Assim sendo, neste curso recebemos muita informação de que não esperávamos, sobre os hospitais, sobre o parto em casa, o parto humanizado, entre outros temas. E fazer este curso não iria inviabilizar a nossa vontade de fazer um curso dito "normal" de preparação para o parto, com uma enfermeira ou fisioterapeuta.

Mas este curso foi o turning point. Foi aqui que começámos a perceber que existe muita informação bipolar, e a par da quantidade de informação, muitas pessoas nos dois extremos da jangada a acenar para os pais grávidos dizendo que o seu lado é o melhor. É claro que quantos mais ficam de pé num dos lados, mais depressa a jangada se afunda... E assim sendo, nós cá gostamos muito de estar no meio, no nosso lugar, com as nossas ideias e bebendo do que há de melhor dos dois lados da barricada.

Demorou algum tempo encaixar a informação dada neste curso: valerá a pena fazer um plano de parto e enviar ao hospital? Será que vou ter sorte com a equipa no dia do parto ou será que me vão vilipendiar de todas as formas possíveis e imaginárias? Não foi fácil, mas foi claramente necessário e possibilitou a abertura de novas portas e a recepção de novos conhecimentos.

Continuei então à procura de um curso de preparação para o parto para complementar com o anterior. E o que me apercebi é que não existe assim tanta oferta quanto isso, e que, de facto, o decréscimo no número de grávidas faz com que existam poucas "turmas" a abrir ou pouca disponibilidade para cursar apenas um casal. Mas como nada acontece por acaso, encontrei um sítio onde o curso é mais barato, é mais perto de casa e é dado a um ou dois casais, sendo que no nosso caso ficámos sozinhos mas felizes. Fomos a poucas aulas, mas gostámos e ao contrário de outros cursos com limitação de horas/aulas, aqui vamos estar acompanhados até ao nascimento.

No final de contas, acho que a melhor preparação é de nós para nós, pois como sabiamente ouvi dizer "80% do parto ocorre entre as orelhas", pelo que a parte mental deve ser domada, e aí várias áreas terapêuticas podem intervir. E se demasiada informação não for demais, aconselho vivamente a fazer terapia neste momento, assim como assistir aos diversos cursos que se fazem, dos mais práticos aos mais profundos. E no fim, e aí será o mais importante, cozinhem tudo e façam um prato ao vosso gosto, que é como quem diz, sejam inteligentes, pensem por vocês e cheguem às vossas conclusões, que devem ser baseadas nas vossas necessidades, respeitando sempre a vossa individualidade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Ser mulher



Diz-se que a sociedade impõe aos meninos que não chorem, que não demonstrem fragilidades e que sejam Homens, com H grande, com capacidade para lidar com a vida de uma forma quase bélica, mas também quase heróica e altruísta (este último, qb).

Dei por mim a pensar nisto e a perceber que está incompleto. Isto também acontece no feminino. Pelo menos, e de forma subtil, foi o que me chegou: tenho de me esforçar sempre para estar a postos para qualquer luta que surja; não posso baixar os braços, tenho de tentar sempre estar entre os melhores; não posso fraquejar e muito menos ser frágil ou desistir.

Não sei se é algo português, se é uma imposição apenas da minha geração, ou talvez da minha área geográfica (teria de fazer uns inquéritos!), mas o que é facto é que a mulher também tem de ser forte. Esta e outras imposições externas, tanto nos homens como nas mulheres, traduz-se numa enorme rigidez,seja ela de movimentos, de emoções, ou de pensamentos condicionados. E com isto andamos todos e todas a neurotizar e a perguntar: porque é que nunca me sinto satisfeito? Porque é que não me sinto plena? A resposta nunca é fácil, e como sempre, é preciso ultrapassar o sintoma e ir à origem.

Com a gravidez, como é óbvio, este tema intensifica-se. Queremos acompanhar a nossa neurose e o corpo não vem connosco. Queremos continuar à mesma velocidade, fazer cinquenta coisas ao mesmo tempo (o cérebro feminino é multi-pista, nunca se esqueçam) e não é humanamente possível. Gravidez não é, efectivamente doença (lá está mais um clichet metido à bruta pela sociedade e que faz com que a grávida não se queixe), mas o estado de graça por vezes não tem nada de engraçado e é necessário saber quando parar ou abrandar.

E com isto tudo, esquecemo-nos do mais importante: não existem duas mulheres iguais e não existem duas gravidezes iguais, logo, a experiência de uma não é, nem pode ser, a experiência da outra. Então, vemo-nos numa encruzilhada: a sociedade diz que temos de ser fortes e aguentar o mais possível, o nosso corpo diz-nos "nem pensar", as nossas emoções ficam todas baralhadas e a mente só complica, com os seus filmes e ideias, histórias e crenças... E foi nesta encruzilhada que me deparei com a frase em cima, parece que de facto nada é por acaso, e surgiu na melhor altura. Temos de tratar de nós, olhar seriamente para a nossa saúde (física e mental) e reflectir bastante sobre estas encruzilhadas da vida. E digo reflectir para avançar, e não mastigar na neurose algo que os nossos dentes já não mordem.

Foto: https://www.facebook.com/HuffPostWomen/photos/a.196854310382630.47501.153213781413350/651692994898757/?type=1

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Guia para uma grávida, ou a minha história

Estou grávida. Bom, já estou mais perto do fim do que do início e sempre fiquei com a ideia de começar a falar sobre esta viagem no blog. Mas a verdade é que fui sempre adiando porque não tem sido fácil esta ligação interior-exterior. E é sobre esta dificuldade que vim falar. A gravidez é um free-pass para as coisas dos outros.

A barriga apareceu muito cedo. E cedo começaram os comentários sobre a desgraça que se iria abater sobre mim: eu ia ficar enorme; a minha vida ia acabar; iria ter dificuldades em voltar às minhas medidas; ia deixar de ter tempo para mim; a minha vida ia mudar radicalmente; compra aquelas fraldas, usa aquele creme, eu é que sei...; aproveita agora para ir fazer coisas com o marido; a minha relação com o meu marido iria ficar irremediavelmente transformada num inferno de fraldas e cocós... E no fim acrescentavam sempre: mas é fantástico; é uma grande experiência e não o trocava por nada.

De facto pensava que a gravidez me aproximasse mais de quem já passou pelo mesmo estado, mas vi-me ainda mais agarrada às minhas amigas sem filhos, pois essas seriam certamente mais benevolentes.

Não vou rebater todos os pontos negativos com que fui albarroada. Mas posso dizer o seguinte:

1) Como é que a vida não muda com mais um ser na família? Isso não é uma ideia básica? E seria eu considerada assim de forma tão ingénua que não tivesse consciência disso?

2) A vida vai mudar. Bom, não quero parecer uma filosofa do Zen, mas todos os dias a vida nos dá como presente a possibilidade de mudar. As transições existem nos pequenos passos, logo, com um parto, uma tão grande transição, existe todo um novo mundo para explorar, com os seus desafios, uns fáceis e outros difíceis, como aliás, tudo na vida. Ainda para mais, foi uma decisão consciente de dois adultos, não foi uma loucura de última hora ou a vontade de seguir a moda da amiga do lado.

3) Em relação à parte da barriga enorme, posso avançar que aos 8 meses estou bastante elegante. A recuperação da forma? Logo se vê. Quando engravidei não foi certamente com o intuito de ficar com o corpo de uma top model.

4) A relação? Decidimos engravidar quando chegámos a um determinado momento na nossa relação em que achámos que estávamos prontos para ser pais. Vamos ter muitos desafios pela frente mas sei que tenho uma relação sólida para lidar com eles. Somos crescidos, sabem? Aproveitar agora para ir passear, ir ao cinema, ter tempo a dois: o que é que acham que fizemos este tempo todo?

E por falar em crescidos, o que estas conversas ressoam em mim é que me tratam como se fosse uma grávida de 15 anos, que não sabe no que se meteu e que se calhar não vai saber se o bebé tem frio ou  forme. Isso é a minha parte, aquilo que me toca, aquilo que me irrita e que mexe comigo. É tudo uma questão de limites que eu tenho de rever e tratar com carinho. E eu considerava que tinha os meus bem estabelecidos, mas na verdade, estar grávida muda tudo e a barriga a crescer torna-se a porta de entrada para a invasão completa. No entanto, se formos mais além e se formos analisar terapeuticamente aquilo que é dito e por quem é dito, vamos ver que precisamos de ter muita compaixão pelos outros.

Quando em várias situações da nossa vida (não só na gravidez), alguém nos invade com as suas histórias (aqui podemos incluir as histórias de parto, sendo que contam sempre o que correu mal e nunca o que correu bem), podemos habilmente concluir que essa pessoa precisa de atenção. É aquela pessoa carente que precisa de espectadores. Caso conte o que correu bem, então é o narcisista-positivo: olhem para mim que sou a maior e tudo correu bem; se tiverem o azar de esbarrar com o masoquista-oral negativo vão levar com uma enchurrada sobre cortes no perínio, dores dilacerantes e sangue nas paredes. Lamento informar que este último é o mais comunicador e presente na vida da grávida.

Depois temos os que nos invadem porque eles é que sabem tudo o que há a saber sobre gravidez e parto, mesmo que nunca tenham tido filhos ou os tenham tido há três décadas. Não se apercebem que as coisas evoluem até mesmo em 2 anos e que a cada momento existe um médico que defende uma verdade diferente. Mas isso não interessa. O que interessa é a sua verdade. E estas pessoas vão vos tentar enfiar a sua verdade pelas nossas goelas abaixo, quer queiramos quer não. Vão questionar todas as vossas decisões, desde o porquê da compra de determinado produto ou para quê fazer determinado curso de preparação para o parto. Aqui posso apenas dar um conselho: decidam a vossa verdade, enquanto casal e guardem-na para vocês. Um exemplo disso é que decidimos ter um parto normal em hospital, mas fizemos um curso de preparação para o parto com uma Doula em que ela falou sobre o parto em casa. Ao comentar isto com as pessoas mais próximas (atenção, não indicando que teria essa vontade, porque não tenho, mas falando de quão mágico parece ser) fui crucificada, atirada de um 4º andar regada em gasolina enquanto me atiravam facas. Aprendi logo: não contar nada a ninguém, mesmo que seja algo que não vamos fazer. Nem sobre o que penso para o parto, nem sobre as vacinas ou até mesmo se vou usar compressas com água ou toalhitas para limpar o rabo do meu filho (sim, há um dilema sobre esta temática do cocó que é importante apresentar para que não temam a reacção alheia).

Com muita pena minha encontrei já no fim da gravidez uma aliada silenciosa, tão silenciosa que ela nem sabe que o é. Na verdade encontrei alguém prático, directo e com bastante experiência a quem sei que posso perguntar coisas simples (como toalhitas ou compressas?), sem que tenha de ouvir todo o chorrilho de experiências desde o século passado. Uma pessoa prática que me diz apenas: "compressas com água morna no início, toalhitas mais para fim." E tudo isto sem me explicar a criação do Universo, não é fantástico?

O corpo... Pela estatística que fiz, quem disse maliciosamente ao início que eu ia engordar para os tamanhos abissais de uma baleia, engordou em média 25 kg na sua gravidez (ou gravidezes). Maldade? Desejo de ver o outro sofrer? A minha cartada aqui foi silenciosa: permanecer elegante e engordar apenas o necessário para que o meu bebé esteja bem e saudável. Não usei a gravidez como desculpa para comer o que quero e o que me apetece, e como ainda me falta um tempinho, quem sabe não engordo um bocadinho nos presuntos para que as invejosas fiquem mais satisfeitas? E agora digo eu uma verdade: não temos de comer por dois. Grande descoberta que eu fiz.

Finalizo com um outro conselho: se perguntarem se está tudo a correr bem na gravidez digam que sim. Evitem dizer que tiveram enjoos, tensão baixa, anemia... Não digam nada, está tudo bem! Caso prefiram a honestidade, boa sorte...!

Nota: aqui honestidade é mais tida como especificidade do estado da grávida do que outra coisa...