segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dar a mão, deixar a mão


Quando uma criança está a aprender a andar, não podemos esperar que ande sozinha se lhe estivermos a segurar na mão. Assim é o caminho da terapia. E é este o caminho que poderíamos tomar nas nossas vidas e, principalmente, nas relações que temos.

Parece-me idílica a imagem de ajudar alguém a aprender a andar de bicicleta: Vamos deixando a nossa mão nas costas do novo ciclista e retiramos no momento certo. No momento certo para que o atleta ainda sinta o medo e a sua conquista. No momento certo para que ele sinta a transição. Naquele momento chave em que sabe que está por sua conta, mas que ainda está alguém lá atrás quem, embora não o toque nem vá evitar uma queda, o vai ajudar a levantar. O problema é encontrar o momento certo para largar.

Parece-me que esta imagem é rara. Penso nas mães com medo que não largam o ciclista. Lembro-me dos pais "ocupados" com outras tarefas e que não podem dar uma mão. E recordo que existem pessoas que não sabem viver sem esta mão dada.

E esta bicicleta ou estes passos, são a vida. E saber quando nos devemos afastar para que o outro aprenda a viver é fundamental. E difícil. Porque nestes momentos pensamos na mão que queríamos ter nas nossas costas.

Imagem: http://mattewnobre.blogspot.pt/2010/12/aprender-andar-e-o-primeiro-passo-dar.html

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Mortes e fantasmas



Sim, é certo que a morte deve ser respeitada, principalmente tendo em consideração a família e amigos dos falecidos, pois esses ficam, ouvem e leem o que não querem. Não rejubilo a morte de quem não gosto, mas respeito-a em todas as situações. No entanto, seguindo o ideal de “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, não acho que uma pessoa, só porque morre, vira santa, anjo ou coisa que o valha. E isto é de facto uma atitude muito comum nas aldeias. Ora, como em tempo de crise o país encolheu para este estatuto de "aldeia", parece que tudo o que morre merece estátua.

A morte é um momento de dor para quem a assiste de perto. É algo de desconhecido para quem vai de barco para atravessar esse rio de mistério, em que não sabemos onde vamos desaguar. É algo que sabemos que vai acontecer mais tarde ou mais cedo, a nós e aos que nos acompanham, mas é um tema que escondemos debaixo da cama, atrás de uns caixotes de sapatos, que é para não incomodar muito. Ali ganha cotão, é certo, mas longe da vista, longe do coração.

Voltando à premissa dos mortos virarem santos, não sei se não dizem mal dos mortos com medo que venham em formato fantasma. “Era bom rapaz”, diz uma velhinha sobre o pilha-galinhas da aldeia, atropelado por um tractor enquanto fugia com o seu galo capão (o maior e mais lindo lá do sítio, digno de prémios numa Ovibeja… Lá do sítio). Será que ela tem medo que ele a assombre durante a noite, puxando o canto a um cobertor?

Não vou dizer perentoriamente que não acredito em fantasmas, mas acredito que esses tipos teriam outras prioridades, caso voltassem depois mortos para arreliar as pessoas. Assim sendo, e sem ter em conta a teoria do fantasma, não percebo porque se santifica alguém desconhecido. Não sabemos, aliás, quando o destino de quem parte, embora existam as mais diversas opções, tantas quantas religiões.

Melhor, melhor, seria que todos fossemos santificados ao morrer, mas por motivos nobres e correctos, e assim saberiamos que estavamos a deixar um mundo terreno melhor... Mas isso são outros quinhentos e o que interessa é viver no 8 e no 80: ou se mata o morto, ou se santifica o coitado!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Pooh, que simplesmente é


 Existe um livro maravilhoso chamado "O Tao do Pooh". Já o li há muito tempo, bem antes das novas andanças terapêuticas. É do autor Benjamin Hoff e pode ser encontrado em Portugal através da Editora Sinais de Fogo.

Não vou desvendar muito do livro, até porque o terei de ler novamente, à luz de uma nova consciência, mas se têm interesse em temas onde a filosofia de vida se encontra com a clareza das palavras e das explicações, então recomendo.

Na contra-capa lê-se: "Enquanto o Igor se arrelia, e o Leitão hesita, e a Coruja pontifica, e o Trigue balança, o Pooh simplesmente é."

Fonte desconhecida

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Estacionamentos


Vivíamos num bairro onde o estacionamento era parco, tal como em toda a cidade. A luta por um lugar era vivida como se os condutores fossem gladiadores no meio de uma arena. Só não existiam leões, nem se fazia a diferenciação entre religiões. Mas nós éramos uns sortudos: tínhamos lugar de garagem! Não era o melhor lugar de garagem do mundo, mas o calhambeque dos anos noventa que ambos partilhávamos, cabia muito bem.

Um dia ele chegou no carro e estacionou na rua: era cedo, havia um lugar vago e ainda íamos sair. Assim não era necessário entrar na garagem e fazer manobras com um volante mais difícil de virar que o dos carrinhos de choque que antes estavam lá perto, na feira popular! Era o ideal quando o calhambeque ainda ia ser requisitado ao final do dia.

Conversa puxa conversa e o sofá ficou mais confortável, adiando os planos de saída. Decidimos ficar em casa. E nesse momento de decisão, ele levantou-se e ouvi o barulho de chaves: "onde vais?", perguntei. Ele disse que ia colocar o carro na garagem. Achei tonto, para quê ter esse trabalho? No alto da sua generosidade ele respondeu: "vai haver uma pobre alma que vai ficar muito grata por encontrar um lugar perto de casa a estas horas da noite, tenho a certeza!". Eu percebi-o, mas como era mais ingrata com a vida, disse-lhe: "E se for uma pessoa que não merece o lugar? Já viste, se for uma pessoa má, zangada com o mundo?". Ele disse, com a mesma generosidade de sempre: "hoje ele encontrará um lugar, mas um dia vai perceber que nem sempre existem lugares disponíveis."

Imagem: http://mundoalice.wordpress.com/2011/02/24/nao-gosto-de-falta-de-civismo/estacionamento-lotado8/

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Segunda-feira

Está a começar uma semana que vai passar devagar e depressa. Têm sido todas assim. Mas eu não me vou focar nisso. Vou-me focar em passá-la bem e em estar presente em cada momento, respirando-o. Segunda-feira é tradição: é dia de desprezar as horas que não passam, maldizer o que se tem-de-fazer e segurar os freios da personalidade. É estar ciente de que se vão repetir 5 dias quase iguais. Vamos acordar 5 dias cedo e vamos estar fora da nossa casa durante as horas deste desconforto. Mais do que isso, vamos estar fora dos nossos horários. Fora daquilo que queremos ser, por imposição daquilo que é externo e daquilo que é exigido por nós.

Mas esta Segunda-feira foi diferente. Nesta Segunda-feira que começou sendo de nevoeiro e Sol, vi a divisão entre aquilo que me afecta porque eu deixo, e aquilo que me rodeia e que eu não permito que me invada. Então, afastei carinhosamente o nevoeiro e pensei: não me vou deixar afectar. Vou respirar, centrar e permitir o contacto comigo. E depois cheguei ao meu dever e vi isto:

"Live your daily live in a way that you never lose yourself. When you are carried away with your worries, fears, cravings, anger, and desire, you run from yourself and you lose yourself. The practice is always to go back to onelself" ~ Thich Nhat Hanh

Boa Segunda-feira, oh Universo!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Introvertidos?


Como diria o Forrest Gump: "And that's all i have to say about that!"

Fonte desconhecida

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Honras

Sexta-feira: estou ainda chateada com algo que começou a acontecer na Segunda-feira. Pois é, parece que 5 dias passados não fizeram nada para melhorar a situação. Sem grandes explicações - porque não vale a pena bater no ceguinho - faltaram-me à palavra. Combinei uma coisa, neste caso uma compra, que me saiu gorada porque possivelmente não tinha tanto pedigree como o comboio que me atropelou e efectivou a compra depois da minha pré-reserva. Não me lixa o bem material (já me resolvi por outro lado), lixa-me a falta de palavra.

Bem sei que isto de dar a palavra, ou aquilo que é honrar um compromisso, é algo que está nas ruas da amargura por todo este mapa português, mas ainda assim, consigo ficar mesmo genuinamente chateada porque a palavra já não é o que era. É certo que sou nova e que isto da honra parece do século passado. Não sou do tempo dos duelos nem dos crimes legais por atentado à honra, mas acredito que a nossa palavra num compromisso deve valer a peso de ouro. A honra deveria de ser hiper-hipster-trendy.

Não estou a falar de combinações mesquinhas do ir beber café e não ir ou coisa que o valha. Estou a falar de coisas combinadas entre duas pessoas tendo como base a confiança entre essas mesmas pessoas. Se não conheço bem a pessoa, não sei o preço da sua palavra. Neste caso custou-me saber que alguém que estimava se vendeu com tanta facilidade, permitindo que eu fosse consumida pelo consumismo dos outros. E se eu confio na pessoa, eu acredito na palavra que se estabelece entre os dois. "Combinação". Se a palavra fica muda e caída entre um fim-de-semana, que poderei dizer da confiança pré-estabelecida? Esfumou-se.


Claro que, fazendo um exercício mais terapêutico, devo procurar em mim o motivo de ter ficado deveras arreliada com tudo isto. É fácil: senti-me transparente, muda, espezinhada e não fui tida em consideração. E mais: acredito que a situação se despoletou pelo facto de ser a pessoa que - nesta situação e aparentemente - está no nível mais baixo desta cadeia alimentar. Tudo isto me deixa frustrada e me aperta a garganta.

Mas sim, tudo é um desígnio do universo, energia, como lhe quiserem chamar. E sei que desde que esta situação se instalou que tenho aprendido ainda mais sobre mim e sobre as pessoas à minha volta. Resta agora fazer o rescaldo, que é como quem diz, dar amor a tudo isto.

Imagem: http://www.frasesmais.com/quando-a-honra-de-um-homem-e-inatacavel.aspx