Conforme vou passeando pela vida, vou percebendo cada vez melhor que não devemos fazer julgamentos sobre os outros sem termos passado pelas mesmas situações que julgamos. É como dizem os estrangeiros: não falar sem ter calçado os sapatos do outro e ter andado uns bons metros. Bem, melhor é mesmo não existir julgamento, ponto. Vamos então trocar as palavras, em vez de julgamento vou referir o seguinte: cada vez percebo melhor que não devemos opinar sobre situações sobre as quais não passámos.
Falar do outro é fácil. Dar conselhos, ideias, dicas, é tão fácil que é de graça. Estes conselhos não pedem licença, não batem à porta, e mesmo que não sejam bem vindos, eles entram à força sem bater, sentam-se no nosso sofá, metem os pés em cima da mesa e ainda perguntam se o cafézinho demora muito. São invasivos, ponto. E eu não gosto.
Lidar com este tipo de situações é uma viagem com altos e baixos e se num dia corre bem e a forma como respondemos se chama assertividade, no outro chama-se irritação e leva a outra coisa chamada discussão. Quando são um pouco, vá, aguerridos como eu, existem limites que estamos constantemente a demonstrar aos outros. Claro que por vezes apetece sacar de um giz e fazer uma linha no chão para ver se o outro percebe. Ainda assim, colocar limites é um trabalho activo que exige muito de nós: exige atenção constante e uma energia pacificadora que dê a uma invasão uma resposta assertiva.
E o que é ser assertivo? É expor, de forma afirmativa e não arrogante, aquilo que queremos transmitir ao outro. É o ténue equilíbrio entre o "opá, não digas isso" e o "dizes isso outra vez e..." Será o "não deves dizer isso sobre algo que desconheces e para o qual não tens qualquer posição criativa de resposta". Sei lá, qualquer coisa assim, louca.
Como nem sempre é possível ser assertivo, por vezes a vontade é a de mostrar o middle finger e mandar toda a gente obrar. É aquele momento em que os cabelinhos da nuca ficam eriçados com tamanha desfaçatez relativamente ao que nos é transmitido. E para quem insiste, apenas posso referir: se não calçam o 39, não são Ananicas, e não têm a minha vida, então cheguem para lá, que os meus sapatos não vos servem. Mas enfim, resta esperar pelos dias de Buda em que podemos mandar todos passear em paz.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
E tentar fazer diferente?
Às vezes pensamos que estamos estagnados: o trabalho é uma
rotina, a vida familiar sofre sempre dos mesmos males de sempre e a vida social
morreu de tédio há uns anos atrás. O movimento é algo difícil e ficar na nossa
redoma, na nossa rotina diária parece ser a única forma de sobreviver. Por
vezes somos levados a pensar que mais vale manter igual para não abanar muito o
barco, já que nunca afundou de vez.
A questão é que por vezes parece que o barco se vai
aguentando nestas águas paradas, mas na verdade, ao não ir a lado algum, vai
ganhando peso e afundando muito lentamente. Amargurados naquilo que é
expectável na nossa vida, não damos conta de como o barco estagnado no lodo nos
vai arrastando para baixo, apesar de ainda acharmos que vemos o horizonte.
Porque não querer mais da vida? Porque não escolher fazer
diferente, e tentar soltar algumas amarras? Não digo para colocar um motor
potente no barco e arrancar a toda a velocidade. O nosso corpo estagnado podia
nem aguentar. Porque não colocar um pequeno remo e fazer um pequeno movimento
diferente? Podemos passar a sorrir aos nossos colegas e ver a diferença que
isso faz. Telefonar a alguém que não espera o nosso contacto, ou ir dar uma
volta a pé por uma rua ainda não visitada. Coisas pequenas constroem grandes
transições. E porque não referir aquela frase-cliché: grandes viagens começam
com pequenos passos?
E se não apetecer porque não forçar? Forçar um movimento
pequeno não deve ser traumático ou doloroso. Experimente, sinta o que é
possível para si neste momento. Se não é possível ir fazer uma corrida,
consegue ir andar um pouco a pé? Quando criar novos amigos parece um cabo das
tormentas, falar com os velhos é uma possibilidade? Fale consigo, veja o que é
possível fazer por si, hoje!
Imagem: http://optimismoemconstrucao.blogspot.pt/2013/05/para-refletir.html
Imagem: http://optimismoemconstrucao.blogspot.pt/2013/05/para-refletir.html
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
Perdida e achada
Estou a ver o Jornal da Noite da SIC e está a dar os Perdidos e Achados. Para quem não sabe, trata-se de uma rubrica que retoma temas antigos nos dias de hoje, ou procura a actualidade de alguém com uma história marcante no passado. O tema de hoje é a noite. Antigamente, dizem eles, a malta nova ia para as discotecas e agora a noite é vivida na rua, num autêntico botelon. Ouvi uns tipos com 19/20 anos a dizer que começaram a sair com 16 e que agora está tudo muito diferente: muita criançada que começa a sair com 14. Que poderei dizer com 32?
O que é certo é que esta rubrica fez-me viajar no tempo, mais que não seja porque é Sábado e eu estou muito satisfeitinha em casa. Abri a porta do Delorean e lá fui eu.
Quando era adolescente era de facto tudo muito diferente. Não apanhei a fase das matinés por vários motivos: não era frequente lá no burgo; se fosse, os meus pais não me iam deixar ir; e parece que no início dois anos 90, a moda da matiné tinha esmorecido.
Vivia perto da praia, a malta gostava era do verão, de bares com cerveja fresca e de encontrar os borrachos bronzeados que tinhamos visto na areia ao longo do dia. E discoteca, havia uma, duas. E todos se conheciam.
Mas a minha vida da night começou mais tarde, pelos 20. E aí já havia boa companhia e mais importante: carro! Ah, carro era a chave para a noite da grande cidade: em pouco tempo estávamos nos locais mais badalados de Lisboa, e todos os fins de semana eram esperados com grande expectativa. O certo é que foram tempos bem engraçados. Foram cerca de 3 anos de histórias engraçadas que envolvem o Reynaldo Gianecchini (himself), um empadão de pimenta e um japonês à porta da casa de banho do lux a gritar-me: "BANZAI!! BANZAI!!!", enquanto fazia uma espécie de vénia... Podia escrever um livro ou fazer uma série de sketches com as histórias que vivi, e acreditem que iria arrancar gargalhadas a uma gárgula de pedra em Notredame.
Agora, nos 30, confesso-me... Não vejo qualquer interesse em ir para um local onde não consigo falar nem ouvir as pessoas à minha volta. Dou preferência a uma boa conversa, a um bom jantar, bem regado e bem acompanhado. Mas nada paga nem apaga as memórias que ficam, as histórias que ainda hoje ganham vida, e a sensação de aproveitamento daquela energia que tomava conta de nós e nos permitia dançar 6, 7 horas seguidas. Lembro-me de tudo com um sorriso, mas foi um momento, uma fase, uma época. Gloriosa, sim! Aproveitei, dancei, diverti-me. E ri enquanto dizia à minha parceira de crime: ai que o sol já nasceu, ai que o sol já nasceu, a caminho de casa, tão depressa quanto possível. Bons tempos, e mais do que isso, boas amizades que ficaram até hoje.
PS: E sim, cheguei a conhecer o Tino de Rans na 24 de Julho. Ah, velhos tempos!
Imagem: http://essencias-fm.blogspot.pt/2013/03/sair-noite.html
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Mudemos de assunto, sim?
Tenho um amor especial por letras de canções. Não todas, apenas aquelas que ressoam em mim. Não tenho como explicar. Temos a musicalidade, os instrumentos, a voz... E a letra! E quando tudo se combina como se tivesse sido feito no Olimpo, só pode ser um momento divino! Esta letra de Sérgio Godinho, como tantas outras, faz-me pensar em como é bom existir, viver com música.
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar intecro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que enfuna as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
Letra de Sérgio Godinho
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar intecro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que enfuna as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
Letra de Sérgio Godinho
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Palavras, escrevo-te eu tantas
Justo quando achava que as palavras eram o caminho, elas sumiram. Esvaziei a cabeça. Olhei lá para dentro e não vi nada. Só vejo imagem, reflexos, temas genéricos. Vejo o cenário mas não escrevo a história. Roda o mundo devagar, ou depressa, e roda a saia da boneca que dança na minha cabeça. E gira, gira, gira... Saia de baile, ela ri, espalha a graça, sinto o riso, não tenho as palavras.
Assim fiquei nos últimos meses. Muitas outras palavras vieram, concretas, académicas, objectivas, acertadas. Ocuparam o espaço da subjectividade. E agora, essas palavras direitas, rectas, certas, estão a ir embora aos poucos. E aos poucos sobra espaço, espaço para a cor. Para o que não é certo mas pode ser, o que é redondo, indirecto... E sorrio. Porque existem palavras que são nossas. Podem adormecer durente um tempo, mas nunca nos abandonam.
Imagem: http://luciointhesky.wordpress.com/tag/rain-dos-beatles/
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Dar a mão, deixar a mão
Quando uma criança está a aprender a andar, não podemos esperar que ande sozinha se lhe estivermos a segurar na mão. Assim é o caminho da terapia. E é este o caminho que poderíamos tomar nas nossas vidas e, principalmente, nas relações que temos.
Parece-me idílica a imagem de ajudar alguém a aprender a andar de bicicleta: Vamos deixando a nossa mão nas costas do novo ciclista e retiramos no momento certo. No momento certo para que o atleta ainda sinta o medo e a sua conquista. No momento certo para que ele sinta a transição. Naquele momento chave em que sabe que está por sua conta, mas que ainda está alguém lá atrás quem, embora não o toque nem vá evitar uma queda, o vai ajudar a levantar. O problema é encontrar o momento certo para largar.
Parece-me que esta imagem é rara. Penso nas mães com medo que não largam o ciclista. Lembro-me dos pais "ocupados" com outras tarefas e que não podem dar uma mão. E recordo que existem pessoas que não sabem viver sem esta mão dada.
E esta bicicleta ou estes passos, são a vida. E saber quando nos devemos afastar para que o outro aprenda a viver é fundamental. E difícil. Porque nestes momentos pensamos na mão que queríamos ter nas nossas costas.
Imagem: http://mattewnobre.blogspot.pt/2010/12/aprender-andar-e-o-primeiro-passo-dar.html
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