Pelo que tenho sentido e visto à minha volta, parece que terminar uma relação é mais difícil do que fazer uma depilação completa onde se arranca pelo a pelo enquanto alguém segreda: "dói muito, dói?", com um tom irónico. Aparentemente, as relações são infelizes mas tenta-se salvar até às últimas consequências, algo que já está estragado e que cheira pior do que aquela estrada em Sines. E os motivos são muitos: filhos, ter medo de ficar sozinho, ter medo de saltar para o desconhecido, entre outros. Apesar de ser válido, porque o egoísmo e o medo fazem parte da evolução pessoal (done that, been there), por vezes assistimos a casamentos mais afundados que o Titanic, mas que ainda assim lutam para vir à tona.
Creio que isto tem uma génese e um dos factores está relacionado com as histórias fantasiosas da infância. O problema dos contos de fadas é que, para as raparigas, mesmo que o carro se transforme numa abóbora, vamos ser felizes para sempre, e na vida real isto não é assim. A abóbora já se arrasta desmaiada e tem um ar mais cadavérico e assustador do que as abóboras do Halloween. A expectativa é sempre a de que a coisa um dia vai resultar, e insiste-se até à última gota. E no fim temos relações inexistentes: apenas duas pessoas que dividem (eventualmente) o mesmo espaço e o mesmo ódio um pelo o outro. Alguns homens, por seu lado, pulam de casa em casa à procura do tal pé especial para o sapatinho. Muitos, quando o sapato cabe questionam: e se crescer um joanete? Depois o sapato já não cabe...
Não creio que a solução seja "separem-se e vivam felizes para todo o sempre". O segredo está mesmo no processo: eu fico preso nas relações e não consigo sair? Perdi a minha individualidade? E a cereja no topo da abóbora: sou feliz? Não me refiro ao feliz-a-toda-a-hora (isso não existe, lamento desapontá-los), mas ao feliz nas coisas simples, ao feliz de coração cheio e com a barriga a sorrir. E é entre o decidir ir ou ficar que vamos crescendo e nos conhecendo melhor. Digo eu.
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terça-feira, 14 de abril de 2015
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Haja imaginação
Quem tem filhos ou tem de entreter uma criança (ou bebé), sabe que tem de se aprumar na cantoria. Ora eu cá sou péssima e para além do "Atirei o pau ao gato" e da música dos patinhos (que sei incompleta, assim como a música das fábulas da floresta encantada ou a linda-falua-que-lá-lá-lá-vem), não sei música nenhuma. Cheguei a cantar coisas do género: "todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar. O pijama vão vestir e os dentes vão lavaaaar, o pijama vão vestir e os dentes vão lavar. É que agora é hora, é hora de ir dormir, é hora de ir dormir, e" coiso e não sei quê e trálalá...
Pior foi quando dei por mim a cantar Gabriel o Pensador ao meu filho de mês e meio, especificamente aquela em que ele diz que matou o presidente do Brasil: "que morreu ali mesmo, ahn, todo ensanguentado. Quê, sai voando com a polícia atrás de mim, e equanto eu fugia eu pensava bem assim: tinha que ter tirado uma foto para mostrar pros meus filhos, que lindo pô!". Lamento, mas estas músicas saem assim de jorro. Acrescento que o meu filho não acha piada à nossa fase de império mundial. Quando lhe gritei "FUI CONQUISTADOOOOORRRRRR", ele contorceu-se e eu tive medo que isto fosse suficiente para se queixar à protecção de menores. Entusiasmei-me,o que é que querem, só de pensar naquele casaco que a vocalista dos DaVinci usava, até fico a uivar.
Bom, pensei que não tinha o melhor repertório infantil e também já tinha esgotado as músicas de Sérgio Godinho. Acho que o meu filho chegou ao seu limite quando entoei "a paz o pão, saúde, habitação!" Tentei lhe fazer ver que estas músicas estão ainda muito actuais dado o estado do país, mas nada feito. Tinha de cantar música de pequenada. Então... inventei! E como tinha esta linda baleia na mão, foi isto que saiu enquanto eu fingia que ela nadava pelas profundezas do oceano:
Eu sou uma baleia!
A vida é uma alegria.
Eu sou uma baleia,
Como peixe tod'o dia!
Eu sou uma baleia,
Sou peixe de água fria!
Eu sou uma baleia,
Gosto de comer azevia!
Eu sou uma baleia,
Gosto muito de nadar!
Eu sou uma baleia,
Só não consigo andar...
Eu sou uma baleia,
Queria ter uma sardinha!
Eu sou uma baleia,
Gosto dela bem gordinha!
O que os nossos filhos nos fazem...
Pior foi quando dei por mim a cantar Gabriel o Pensador ao meu filho de mês e meio, especificamente aquela em que ele diz que matou o presidente do Brasil: "que morreu ali mesmo, ahn, todo ensanguentado. Quê, sai voando com a polícia atrás de mim, e equanto eu fugia eu pensava bem assim: tinha que ter tirado uma foto para mostrar pros meus filhos, que lindo pô!". Lamento, mas estas músicas saem assim de jorro. Acrescento que o meu filho não acha piada à nossa fase de império mundial. Quando lhe gritei "FUI CONQUISTADOOOOORRRRRR", ele contorceu-se e eu tive medo que isto fosse suficiente para se queixar à protecção de menores. Entusiasmei-me,o que é que querem, só de pensar naquele casaco que a vocalista dos DaVinci usava, até fico a uivar.
Bom, pensei que não tinha o melhor repertório infantil e também já tinha esgotado as músicas de Sérgio Godinho. Acho que o meu filho chegou ao seu limite quando entoei "a paz o pão, saúde, habitação!" Tentei lhe fazer ver que estas músicas estão ainda muito actuais dado o estado do país, mas nada feito. Tinha de cantar música de pequenada. Então... inventei! E como tinha esta linda baleia na mão, foi isto que saiu enquanto eu fingia que ela nadava pelas profundezas do oceano:
A vida é uma alegria.
Eu sou uma baleia,
Como peixe tod'o dia!
Eu sou uma baleia,
Sou peixe de água fria!
Eu sou uma baleia,
Gosto de comer azevia!
Eu sou uma baleia,
Gosto muito de nadar!
Eu sou uma baleia,
Só não consigo andar...
Eu sou uma baleia,
Queria ter uma sardinha!
Eu sou uma baleia,
Gosto dela bem gordinha!
O que os nossos filhos nos fazem...
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