quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Do choro ectodérmico ao choro endodérmico

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.

Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos optimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorrectamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.

Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro: ah este choro, isto é fome. Hum, isto é sono! Lembro-me de estar grávida e ouvir estas palavras sábias: quando o teu filho chorar tu vais saber o que é (parecia uma premonição mágica, eles nascem e desce em nós, mulheres, a enciclopédia ser-mãe-deste-filho-em-particular). É mito. Enquanto algumas pessoas acertam, outras (como eu), vão por tentativa e erro. Muita fralda desnecessária é mudada quando a solução era apenas a de voltar a colocar a chucha na boca do menino.

O choro é uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim, e já vimos isto a acontecer na mesa ao lado num qualquer restaurante. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.

Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.

Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são ectodérmicos. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.


É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Divertida-mente


No fim-de-semana anterior vi, finalmente, o filme Divertida-mente ou Inside Out, no seu título original. Não querendo levantar muito o véu sobre o enredo, apercebi-me mais uma vez (e o filme de animação que vi antes deste foi o Up) que os filmes de animação da Pixar são para adultos. Claro que não deixa de ser um filme de bonecos, ok. Mas as mensagens subliminares, as piadas irónicas e o permitir um contacto com a nossa infância estão lá e são dirigidas aos mais crescidos. E para quem já tem filhos e não é uma pedra, certamente que poderá haver espaço para deixar a emoção entrar (ou sair?).

O filme é original e dá-nos uma visão interessante do modo como a nossa mente (eventualmente) funciona: desde as emoções às memórias, passando pela formação da nossa personalidade. De facto, deixa-nos a pensar sobre o que andará aqui dentro.

Uma das personagens é Bing Bong, reproduzido na imagem em cima. Este é o amigo imaginário de Riley, a miúda que será a personagem central do filme e cuja vida é conduzida pelas cinco emoções básicas: alegria, tristeza, medo, repulsa ou nojo e o medo. Ele é feito de tudo aquilo que as crianças gostam e quando chora, chora rebuçados. Que premissa maravilhosa, onde até o choro pode ser doce.

Permanece o ensinamento já debatido na psicologia: não existem emoções positivas ou negativas, existem emoções adaptáveis, cada uma tem o seu papel, a sua importância. Resta-nos olhar para as nossas e procurar o nosso ponto de equilíbrio entre todas elas, a difícil tarefa do Ser.

Imagem: Filme Inside-Out

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Ora bolas


Quando alguém te dá algo que não queres: devolve. É como quando podes devolver uma bola. Algo te é atirado, mas tu devolves. Mas não é como uma defesa no futebol: é apenas a constatação de que aquilo não é teu e tu não continuas em jogo. O difícil é mesmo não ir a jogo. Quando nos fazem um passe, a tendência é sempre para receber a bola, contra-atacar ou defender. É difícil não fazer nada e deixar a bola rolar para fora de campo. Esta bola pode ser grande, pode nos magoar quando nos acerta em cheio. Talvez um dia seja possível diminuir o tamanho da bola e deixá-la rolar entre os nossos pés para fora do campo, e assim, sem nos desviarmos sequer do nosso caminho, permitir que ela - a bola - prossiga a sua jornada sem afectar a nossa.

Imagem: https://www.epochtimes.com.br/inventor-cria-bola-futebol-nunca-esvazia/#.VhPV_n309fA

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um aqui e agora suficientezinho

Mesmo quem não está muito atento já deve ter ouvido falar do aqui e agora. Desde Eckhart Tolle, o autor do livro "O Poder do Agora", que o mundo ocidental recebeu esta dádiva do conhecimento sobre o estar presente no presente sem estar agarrado ao passado, que não pode mudar, e sem se perder no futuro que é desconhecido. Mas, como em tudo na vida, conclui que também aqui é preciso ter conta, peso e medida, ou seja, obter algum equilíbrio e clareza sobre o que é estar no aqui e no agora.


De facto que estar aqui e agora é promover uma certa liberdade das amarras neuróticas do nosso passado, da nossa história, assim como sentir o desprendimento do controle das coisas futuras, nebulosas e desconhecidas. É muito difícil chegar a um estado de quase iluminação no qual estamos no aqui e agora a todo o momento. O Mindfulness, sobre o qual não sei muito, ajudará imenso nesta perspectiva. Ainda assim, na busca por este el dorado, creio ser importante encontrar um equilíbrio saudável, ou seja, neste trio, não ficar só pelo cantor, pois sem os outros não temos a banda completa.

Entrar num registo de procurar o presente renegando o nosso passado é um erro. O nosso passado existe e acompanha-nos. É a nossa história e é de onde vimos. Sei que por vezes temos traumas escondidos ou existem coisas das quais nos envergonhamos ou arrependemos, mas estão lá. E virar as costas a algo que nos trouxe até aqui é sair de casa sem chapéu-de-chuva quando já está a trovejar. O mesmo se passa para o futuro e aqui o grande erro é viver numa espontaneidade falsa na qual não importa o amanhã. Sim, de facto não importa a neurose da expectativa, mas fazer planos não tem porque ser neurótico. Pensar nos nossos projectos futuros, o que queremos para nós e como organizar a próxima semana na agenda não é ser rígido ou controlador. E fugir das responsabilidades com a capa do "aqui e agora" também é uma armadilha que pode surgir.

Como em tudo sobre o que tenho reflectido importa sempre olhar para nós, em determinadas temáticas e questionar: onde está o equilíbrio, para mim?

Imagem: Ana Caeiro

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Separações

"Na história das ciências do homem, um dos factores mais limitativos do conhecimento foi a divisão conceptualmente fixada entre corpo e espírito. Muito antes da divisão do corpo em fatias ou órgãos desafectados, separados uns dos outros, que a Medicina deste século pôs em prática [século XX], já essa dicotomia corpo/espírito funcionava radicalmente, com as restrições e prejuízos que nesta fase se tornaram evidentes, e que vai ser imperioso reparar."

Escrito por Jorge Milheiro no do prefácio à edição portuguesa do livro "Sonho e Psicossomática", editado em Portugal pela Dinalivro em 2001.

Não consigo conceber o ser humano de uma forma de não seja una. Vejo-nos como um "vários-em-um", já não me fico pela dicotomia mente/corpo porque entendo que somos feitos de vários pedaços. A Biossíntese olha para o ser humano como um todo, com tudo o que o compõe (e é muito), mas há uma base tripartida: mente (pensamentos), corpo (acção) e emoções ou sentimentos (embora sejam coisas diferentes, vamos deixá-los aqui juntinhos). É a dança e o equilíbrio energético entre os três, que promovem um fluir que nos permite sentir, pensar e agir de uma forma balanceada e isenta, sem dar importância especial a apenas um deles. A questão é que nem sempre isto é possível porque todos teremos uma tendência. E um primeiro passo fundamental é tomar consciência das nossas tendências e perceber se agimos sem pensar, se nos deixamos levar pelas emoções, se ficamos presos nos nossos pensamentos... Se agimos sem pensar nas relações mas não no trabalho; se a família nos deixa trazer mais o nosso lado emocional ao de cima e não nos permitimos pensar. São 3 áreas de base que contactam também com diferentes áreas da nossa vida. E apesar de poder existir uma tendência genérica, poderão existir diferenças consoante as diferentes áreas da nossa vida.

Conhecermo-nos e perceber onde está o nosso foco, é um passo para melhor compreender o que se passa dentro de nós e como podemos melhorar os nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, por forma a conseguir encontrar um equilíbrio. A viagem não é fácil mas pode ser a chave para muitas situações complicadas que vivemos connosco e, subsequentemente, com o outro.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Lema, dilema e trilema

No outro dia estive num workshop dado pela grandiosa Gabriele Hoppe e direccionado para terapeutas que me deu uma nova visão: lema, dilema e trilema. Giro, não? Um lema é algo que seguimos, algo único e, apesar de surgir a possibilidade de ser uma sentença de acordo com o dicionário, para mim é algo que tem chão, sentido, direcção. O dilema é quando temos na mão os dois passarinhos e existem duas alternativas mas não sabemos qual delas a melhor e qual escolher. Mas aqui ficamos com os pobres passarinhos e aquela venha cantiga de "mais vale um na mão..." não chega para largarmos um deles. E quando estamos com um dilema com asas nas mãos, a tendência é sobrevoar os dois lados e não sair dali, não tomando nenhuma decisão. Planamos em círculos e assim fica a nossa cabeça: à roda e sem sair do mesmo lugar.

Então, o que é um trilema? Não vale a pena perder tempo no dicionário, de facto, esta palavra não existe... Mas é fácil ver que dele fazem parte o dilema e mais qualquer coisa. Pois bem: temos a opção 1, a opção 2, e temos também uma terceira opção que é precisamente algo que poderá acontecer no futuro e que não sabemos o que é. Isto pode parecer estranho mas na psicoterapia, devidamente colocado, pode ser a chave para a percepção dos nossos dilemas através de novas perspectivas.

Neste workshop, a técnica transmitida foi simples: colocam-se papéis no chão com as seguintes designações: opção 1, opção 2, nenhuma delas e ambas (em formato de cruz, pedindo-se depois que o cliente se coloque no meio numa fase inicial). O cliente tem um quinto papel na mão que vai colocar onde lhe fizer mais sentido: algo que desconheço e que pertence ao futuro. O que se pede de seguida é que o cliente se coloque em cima de cada um dos papéis e sinta. Sinta o que vem a nível corporal, sensações, pensamentos... O papel do terapeuta é fulcral pois é o seu olhar atento que poderá detectar mudanças subtis no corpo do paciente enquanto muda de lugar.

O mais importante de tudo é que não se procura uma resposta nem se pretende que o cliente saia deste exercício com uma escolha activa sobre o que vai fazer em relação ao seu dilema ou conflito. Pretende-se que o cliente sinta cada lugar e permita que o corpo revele algum sinal ou indicação. E isso sim, poderá ser depois explorado no consultório.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Holding

O Holding é um dos temas da Pós-Graduação em Psicoterapia Corporal em Biossíntese e a sua definição sugere apoio, sustentação e segurança. Quando nascemos precisamos ser vistos, tocados e necessitamos de nos sentir em segurança. A forma como fomos nutridos nesta fase inicial da vida é fundamental e pode trazer respostas para a forma como nos sentimos hoje. Como fui recebido pela minha família? Como fui visto e cuidado?

Os sentidos assumem uma grande importância nesta altura, pois é através deles que o bebé vai percepcionar o mundo. Quando nascemos já trazemos os cinco sentidos desenvolvidos e na audição, embora o bebé possa não perceber o que lhe é dito, a forma e o tom de tudo o que o circunda é muito importante. Ele sabe distinguir entre a voz meiga do cuidador ou uma voz irritada. E vai reagir a isso.

Imaginem então a importância do toque num corpo que passa por uma transição tão grande: estava numa bolha, num mundo aquático e vem para um local onde há luminosidade, roupas, barulhos estridentes. O toque acalma e o contacto da pele, corpo a corpo, é um grande recurso para o bebé aprender a confiar no mundo e a ser nutrido por ele. A visão é também uma forma muito forte de contacto. Dizem que o bebé quando nasce apenas consegue ver cerca de um palmo à frente do seu nariz, que será o suficiente para ver a cara da mãe enquanto se alimenta. O olhar que a mãe vai devolver ao bebé pode estruturá-lo se for um olhar "quente" que traz excitação e é expressão de amor. Se for um olhar frio, pode congelar o organismo e deixar o bebé perdido.

Será preciso ser um pai ou mãe (ou cuidador) suficientemente bom (como Winnicott dizia), para reconhecer, espelhar e ampliar o entusiasmo da criança, permitindo-a explorar o mundo através de uma comunicação aberta entre todos os elementos da família.