sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ansiedades


No próximo dia 21 de Maio vou apresentar um workshop de divulgação da Psicoterapia Corporal em Biossíntese onde vamos falar, para além de outras coisas, sobre a ansiedade:

Dia 21 de Maio de 2016
Das 10.00h às 13.00h na Sintricare
Valor: 10€

Vamos tentar encontrar respostas para algumas perguntas que nos assolam no nosso dia-a-dia.

Como gerir a ansiedade? 

Que expressão encontra o stress e a ansiedade no meu corpo?

Qual a relação entre a ansiedade e a qualidade do sono?

Inscrições e mais informações: ana.caeiro@mail.com

*********************************************************************************

Todas as nossas emoções e sensações têm um objectivo e uma funcionalidade. Se pensarmos na raiva (não na raiva cega), ela pode ser o motor que nos leva a fazer algo, que nos impele ao movimento. A tristeza permite a expressão de algo difícil e a sua mobilização para fora de nós, e a ansiedade e o medo também tem funções muito importantes.

Ao longo do tempo fomos afastando a ideia de que o ser humano é um animal e como tal, cortámos com a percepção daquilo que não é racional e renegamos o que é entendido como impulsos, intuições ou sensações primitivas. Mas somos animais, e o que me tem ajudado muito a perceber o corpo humano, é ter esta informação bem presente.

Vamos imaginar uma gazela. Esta gazela está na savana a comer a sua ervinha de uma forma tranquila mas presente, ou seja, está alerta ao que a rodeia. O seu batimento cardíaco é normal e é o sistema para-simpático que está a trabalhar. Repentinamente surge uma ameaça, há um leão por perto. A gazela dispara, o batimento cardíaco sobe e é o sistema simpático que toma a dianteira, promovendo a reacção de fuga. Quando a ameaça desaparece, assim desaparece o medo e a ansiedade, o batimento cardíaco diminui e a gazela volta calmamente ao seu pasto. Este é o movimento natural entre ficar ansioso e relaxar. O medo e ansiedade têm então esta funcionalidade: manter o alerta para potenciais ameaças e reagir perante elas.

Então qual a ligação para o homem? O grande problema do homem permanentemente ansioso é que não consegue parar de correr a fugir de um leão que só existe na sua cabeça. Há um botão que está sempre ou quase sempre ligado (consciente ou inconscientemente) e que o faz estar ansioso: com um batimento cardíaco mais acelerado, dores de barriga e, em casos mais graves, uma inabilidade tremenda em funcionar.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma questão de perspectiva


O que Charlie Chaplin nos transmite é a ideia de que, se nos afastarmos durante uma tempo de um local, quando regressamos, o local não nos parecerá o mesmo. É como quando voltamos a visitar a nossa escola primária e pensamos: "ena, é tão pequenina, pensava que era maior!". E era. Nós é que ficámos maiores e com isso mudamos de perspectiva. E a questão da perspectiva é muito engraçada: para já, como podemos ver, não é estática, pois vemos como ela pode mudar. Além do mais é rica e diversificada: cada um tem a sua.

No desenho, a perspectiva é a arte de colocar num desenho as diferentes distâncias entre os objectos retratados. Quando visualizamos o quadro, temos uma ideia de profundidade, vemos mais longe e vemos mais perto. Retratando então a nossa vida, como será ter perspectiva? E como jogamos com esta coisa da mudança de perspectiva?

Conforme crescemos mudamos as nossas perspectivas, seja por motivações físicas, como referi há pouco, seja por motivações sociais, ambientais, familiares, emocionais, and so on... E por vezes cristalizamos em algumas perspectivas. O problema é quando o mundo muda o quadro e, de repente, olhamos para as paisagens que conhecíamos e está tudo fora do sítio. E assim continuará porque estamos a olhar para algo novo com algo velho: a nossa antiga perspectiva não vislumbra este novo quadro. Surgem outros problemas: entristecemos, deprimimos, sentimo-nos insatisfeitos, traídos, mal entendidos... Então, como perspectivar também isto? Como incluir o novo, o velho e nós mesmos?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Felizes 366 dias!

O próximo ano é bissexto. Isto significa que vamos ter um dia a mais no calendário. É um dia a mais para:

  • Amar
  • Dançar
  • Sorrir
  • Criar
  • Escrever
  • Sonhar
  • Abraçar
  • Reescrever
  • Desenhar
  • Gargalhar
  • Curar
  • Relembrar
  • Temperar
  • Facilitar
  • Flexibilizar
  • Beijar
  • Co-criar
  • Potenciar
  • Reflectir
  • Rir
  • ...
 O que podem vocês fazer nesse dia a mais?

Felizes 366 a todos os co-autores das próprias vidas :)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Do choro ectodérmico ao choro endodérmico

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.

Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos optimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorrectamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.

Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro: ah este choro, isto é fome. Hum, isto é sono! Lembro-me de estar grávida e ouvir estas palavras sábias: quando o teu filho chorar tu vais saber o que é (parecia uma premonição mágica, eles nascem e desce em nós, mulheres, a enciclopédia ser-mãe-deste-filho-em-particular). É mito. Enquanto algumas pessoas acertam, outras (como eu), vão por tentativa e erro. Muita fralda desnecessária é mudada quando a solução era apenas a de voltar a colocar a chucha na boca do menino.

O choro é uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim, e já vimos isto a acontecer na mesa ao lado num qualquer restaurante. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.

Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.

Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são ectodérmicos. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.


É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Divertida-mente


No fim-de-semana anterior vi, finalmente, o filme Divertida-mente ou Inside Out, no seu título original. Não querendo levantar muito o véu sobre o enredo, apercebi-me mais uma vez (e o filme de animação que vi antes deste foi o Up) que os filmes de animação da Pixar são para adultos. Claro que não deixa de ser um filme de bonecos, ok. Mas as mensagens subliminares, as piadas irónicas e o permitir um contacto com a nossa infância estão lá e são dirigidas aos mais crescidos. E para quem já tem filhos e não é uma pedra, certamente que poderá haver espaço para deixar a emoção entrar (ou sair?).

O filme é original e dá-nos uma visão interessante do modo como a nossa mente (eventualmente) funciona: desde as emoções às memórias, passando pela formação da nossa personalidade. De facto, deixa-nos a pensar sobre o que andará aqui dentro.

Uma das personagens é Bing Bong, reproduzido na imagem em cima. Este é o amigo imaginário de Riley, a miúda que será a personagem central do filme e cuja vida é conduzida pelas cinco emoções básicas: alegria, tristeza, medo, repulsa ou nojo e o medo. Ele é feito de tudo aquilo que as crianças gostam e quando chora, chora rebuçados. Que premissa maravilhosa, onde até o choro pode ser doce.

Permanece o ensinamento já debatido na psicologia: não existem emoções positivas ou negativas, existem emoções adaptáveis, cada uma tem o seu papel, a sua importância. Resta-nos olhar para as nossas e procurar o nosso ponto de equilíbrio entre todas elas, a difícil tarefa do Ser.

Imagem: Filme Inside-Out

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Ora bolas


Quando alguém te dá algo que não queres: devolve. É como quando podes devolver uma bola. Algo te é atirado, mas tu devolves. Mas não é como uma defesa no futebol: é apenas a constatação de que aquilo não é teu e tu não continuas em jogo. O difícil é mesmo não ir a jogo. Quando nos fazem um passe, a tendência é sempre para receber a bola, contra-atacar ou defender. É difícil não fazer nada e deixar a bola rolar para fora de campo. Esta bola pode ser grande, pode nos magoar quando nos acerta em cheio. Talvez um dia seja possível diminuir o tamanho da bola e deixá-la rolar entre os nossos pés para fora do campo, e assim, sem nos desviarmos sequer do nosso caminho, permitir que ela - a bola - prossiga a sua jornada sem afectar a nossa.

Imagem: https://www.epochtimes.com.br/inventor-cria-bola-futebol-nunca-esvazia/#.VhPV_n309fA

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um aqui e agora suficientezinho

Mesmo quem não está muito atento já deve ter ouvido falar do aqui e agora. Desde Eckhart Tolle, o autor do livro "O Poder do Agora", que o mundo ocidental recebeu esta dádiva do conhecimento sobre o estar presente no presente sem estar agarrado ao passado, que não pode mudar, e sem se perder no futuro que é desconhecido. Mas, como em tudo na vida, conclui que também aqui é preciso ter conta, peso e medida, ou seja, obter algum equilíbrio e clareza sobre o que é estar no aqui e no agora.


De facto que estar aqui e agora é promover uma certa liberdade das amarras neuróticas do nosso passado, da nossa história, assim como sentir o desprendimento do controle das coisas futuras, nebulosas e desconhecidas. É muito difícil chegar a um estado de quase iluminação no qual estamos no aqui e agora a todo o momento. O Mindfulness, sobre o qual não sei muito, ajudará imenso nesta perspectiva. Ainda assim, na busca por este el dorado, creio ser importante encontrar um equilíbrio saudável, ou seja, neste trio, não ficar só pelo cantor, pois sem os outros não temos a banda completa.

Entrar num registo de procurar o presente renegando o nosso passado é um erro. O nosso passado existe e acompanha-nos. É a nossa história e é de onde vimos. Sei que por vezes temos traumas escondidos ou existem coisas das quais nos envergonhamos ou arrependemos, mas estão lá. E virar as costas a algo que nos trouxe até aqui é sair de casa sem chapéu-de-chuva quando já está a trovejar. O mesmo se passa para o futuro e aqui o grande erro é viver numa espontaneidade falsa na qual não importa o amanhã. Sim, de facto não importa a neurose da expectativa, mas fazer planos não tem porque ser neurótico. Pensar nos nossos projectos futuros, o que queremos para nós e como organizar a próxima semana na agenda não é ser rígido ou controlador. E fugir das responsabilidades com a capa do "aqui e agora" também é uma armadilha que pode surgir.

Como em tudo sobre o que tenho reflectido importa sempre olhar para nós, em determinadas temáticas e questionar: onde está o equilíbrio, para mim?

Imagem: Ana Caeiro