segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma questão de perspectiva


O que Charlie Chaplin nos transmite é a ideia de que, se nos afastarmos durante uma tempo de um local, quando regressamos, o local não nos parecerá o mesmo. É como quando voltamos a visitar a nossa escola primária e pensamos: "ena, é tão pequenina, pensava que era maior!". E era. Nós é que ficámos maiores e com isso mudamos de perspectiva. E a questão da perspectiva é muito engraçada: para já, como podemos ver, não é estática, pois vemos como ela pode mudar. Além do mais é rica e diversificada: cada um tem a sua.

No desenho, a perspectiva é a arte de colocar num desenho as diferentes distâncias entre os objectos retratados. Quando visualizamos o quadro, temos uma ideia de profundidade, vemos mais longe e vemos mais perto. Retratando então a nossa vida, como será ter perspectiva? E como jogamos com esta coisa da mudança de perspectiva?

Conforme crescemos mudamos as nossas perspectivas, seja por motivações físicas, como referi há pouco, seja por motivações sociais, ambientais, familiares, emocionais, and so on... E por vezes cristalizamos em algumas perspectivas. O problema é quando o mundo muda o quadro e, de repente, olhamos para as paisagens que conhecíamos e está tudo fora do sítio. E assim continuará porque estamos a olhar para algo novo com algo velho: a nossa antiga perspectiva não vislumbra este novo quadro. Surgem outros problemas: entristecemos, deprimimos, sentimo-nos insatisfeitos, traídos, mal entendidos... Então, como perspectivar também isto? Como incluir o novo, o velho e nós mesmos?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Felizes 366 dias!

O próximo ano é bissexto. Isto significa que vamos ter um dia a mais no calendário. É um dia a mais para:

  • Amar
  • Dançar
  • Sorrir
  • Criar
  • Escrever
  • Sonhar
  • Abraçar
  • Reescrever
  • Desenhar
  • Gargalhar
  • Curar
  • Relembrar
  • Temperar
  • Facilitar
  • Flexibilizar
  • Beijar
  • Co-criar
  • Potenciar
  • Reflectir
  • Rir
  • ...
 O que podem vocês fazer nesse dia a mais?

Felizes 366 a todos os co-autores das próprias vidas :)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Do choro ectodérmico ao choro endodérmico

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.

Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos optimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorrectamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.

Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro: ah este choro, isto é fome. Hum, isto é sono! Lembro-me de estar grávida e ouvir estas palavras sábias: quando o teu filho chorar tu vais saber o que é (parecia uma premonição mágica, eles nascem e desce em nós, mulheres, a enciclopédia ser-mãe-deste-filho-em-particular). É mito. Enquanto algumas pessoas acertam, outras (como eu), vão por tentativa e erro. Muita fralda desnecessária é mudada quando a solução era apenas a de voltar a colocar a chucha na boca do menino.

O choro é uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim, e já vimos isto a acontecer na mesa ao lado num qualquer restaurante. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.

Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.

Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são ectodérmicos. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.


É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Divertida-mente


No fim-de-semana anterior vi, finalmente, o filme Divertida-mente ou Inside Out, no seu título original. Não querendo levantar muito o véu sobre o enredo, apercebi-me mais uma vez (e o filme de animação que vi antes deste foi o Up) que os filmes de animação da Pixar são para adultos. Claro que não deixa de ser um filme de bonecos, ok. Mas as mensagens subliminares, as piadas irónicas e o permitir um contacto com a nossa infância estão lá e são dirigidas aos mais crescidos. E para quem já tem filhos e não é uma pedra, certamente que poderá haver espaço para deixar a emoção entrar (ou sair?).

O filme é original e dá-nos uma visão interessante do modo como a nossa mente (eventualmente) funciona: desde as emoções às memórias, passando pela formação da nossa personalidade. De facto, deixa-nos a pensar sobre o que andará aqui dentro.

Uma das personagens é Bing Bong, reproduzido na imagem em cima. Este é o amigo imaginário de Riley, a miúda que será a personagem central do filme e cuja vida é conduzida pelas cinco emoções básicas: alegria, tristeza, medo, repulsa ou nojo e o medo. Ele é feito de tudo aquilo que as crianças gostam e quando chora, chora rebuçados. Que premissa maravilhosa, onde até o choro pode ser doce.

Permanece o ensinamento já debatido na psicologia: não existem emoções positivas ou negativas, existem emoções adaptáveis, cada uma tem o seu papel, a sua importância. Resta-nos olhar para as nossas e procurar o nosso ponto de equilíbrio entre todas elas, a difícil tarefa do Ser.

Imagem: Filme Inside-Out

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Ora bolas


Quando alguém te dá algo que não queres: devolve. É como quando podes devolver uma bola. Algo te é atirado, mas tu devolves. Mas não é como uma defesa no futebol: é apenas a constatação de que aquilo não é teu e tu não continuas em jogo. O difícil é mesmo não ir a jogo. Quando nos fazem um passe, a tendência é sempre para receber a bola, contra-atacar ou defender. É difícil não fazer nada e deixar a bola rolar para fora de campo. Esta bola pode ser grande, pode nos magoar quando nos acerta em cheio. Talvez um dia seja possível diminuir o tamanho da bola e deixá-la rolar entre os nossos pés para fora do campo, e assim, sem nos desviarmos sequer do nosso caminho, permitir que ela - a bola - prossiga a sua jornada sem afectar a nossa.

Imagem: https://www.epochtimes.com.br/inventor-cria-bola-futebol-nunca-esvazia/#.VhPV_n309fA

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Um aqui e agora suficientezinho

Mesmo quem não está muito atento já deve ter ouvido falar do aqui e agora. Desde Eckhart Tolle, o autor do livro "O Poder do Agora", que o mundo ocidental recebeu esta dádiva do conhecimento sobre o estar presente no presente sem estar agarrado ao passado, que não pode mudar, e sem se perder no futuro que é desconhecido. Mas, como em tudo na vida, conclui que também aqui é preciso ter conta, peso e medida, ou seja, obter algum equilíbrio e clareza sobre o que é estar no aqui e no agora.


De facto que estar aqui e agora é promover uma certa liberdade das amarras neuróticas do nosso passado, da nossa história, assim como sentir o desprendimento do controle das coisas futuras, nebulosas e desconhecidas. É muito difícil chegar a um estado de quase iluminação no qual estamos no aqui e agora a todo o momento. O Mindfulness, sobre o qual não sei muito, ajudará imenso nesta perspectiva. Ainda assim, na busca por este el dorado, creio ser importante encontrar um equilíbrio saudável, ou seja, neste trio, não ficar só pelo cantor, pois sem os outros não temos a banda completa.

Entrar num registo de procurar o presente renegando o nosso passado é um erro. O nosso passado existe e acompanha-nos. É a nossa história e é de onde vimos. Sei que por vezes temos traumas escondidos ou existem coisas das quais nos envergonhamos ou arrependemos, mas estão lá. E virar as costas a algo que nos trouxe até aqui é sair de casa sem chapéu-de-chuva quando já está a trovejar. O mesmo se passa para o futuro e aqui o grande erro é viver numa espontaneidade falsa na qual não importa o amanhã. Sim, de facto não importa a neurose da expectativa, mas fazer planos não tem porque ser neurótico. Pensar nos nossos projectos futuros, o que queremos para nós e como organizar a próxima semana na agenda não é ser rígido ou controlador. E fugir das responsabilidades com a capa do "aqui e agora" também é uma armadilha que pode surgir.

Como em tudo sobre o que tenho reflectido importa sempre olhar para nós, em determinadas temáticas e questionar: onde está o equilíbrio, para mim?

Imagem: Ana Caeiro

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Separações

"Na história das ciências do homem, um dos factores mais limitativos do conhecimento foi a divisão conceptualmente fixada entre corpo e espírito. Muito antes da divisão do corpo em fatias ou órgãos desafectados, separados uns dos outros, que a Medicina deste século pôs em prática [século XX], já essa dicotomia corpo/espírito funcionava radicalmente, com as restrições e prejuízos que nesta fase se tornaram evidentes, e que vai ser imperioso reparar."

Escrito por Jorge Milheiro no do prefácio à edição portuguesa do livro "Sonho e Psicossomática", editado em Portugal pela Dinalivro em 2001.

Não consigo conceber o ser humano de uma forma de não seja una. Vejo-nos como um "vários-em-um", já não me fico pela dicotomia mente/corpo porque entendo que somos feitos de vários pedaços. A Biossíntese olha para o ser humano como um todo, com tudo o que o compõe (e é muito), mas há uma base tripartida: mente (pensamentos), corpo (acção) e emoções ou sentimentos (embora sejam coisas diferentes, vamos deixá-los aqui juntinhos). É a dança e o equilíbrio energético entre os três, que promovem um fluir que nos permite sentir, pensar e agir de uma forma balanceada e isenta, sem dar importância especial a apenas um deles. A questão é que nem sempre isto é possível porque todos teremos uma tendência. E um primeiro passo fundamental é tomar consciência das nossas tendências e perceber se agimos sem pensar, se nos deixamos levar pelas emoções, se ficamos presos nos nossos pensamentos... Se agimos sem pensar nas relações mas não no trabalho; se a família nos deixa trazer mais o nosso lado emocional ao de cima e não nos permitimos pensar. São 3 áreas de base que contactam também com diferentes áreas da nossa vida. E apesar de poder existir uma tendência genérica, poderão existir diferenças consoante as diferentes áreas da nossa vida.

Conhecermo-nos e perceber onde está o nosso foco, é um passo para melhor compreender o que se passa dentro de nós e como podemos melhorar os nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, por forma a conseguir encontrar um equilíbrio. A viagem não é fácil mas pode ser a chave para muitas situações complicadas que vivemos connosco e, subsequentemente, com o outro.