"Eu aprendi a andar, desde então deixei de esperar que me empurrassem
para mudar de sitio" - Nietzsche em Assim falava Zaratustra
Esta frase tem qualquer coisa que me agarra. É a ideia da aprendizagem, fase fulcral mas que ainda nos deixa dependentes. Ainda assim, é o caminho para a independência. Aprender a andar permite-nos ser autónomos. Calcorreamos os caminhos que quisermos e criamos o nosso ser. Somos nós que mudamos de sítio, não somos empurrados pelos outros. Mas isto não é real. Porque existem tantas coisas externas que nos empurram, quer estejamos parados ou a andar. Até existem situações que nos empurram de tal forma que nos desviamos da rota. Cruzam-se pessoas connosco cuja presença nos move. Ouvimos um barulho e paramos, viramos a cara para ver de onde vem. Por isso não, não estamos dependentes só de nós para mudar de sítio. Mas estamos dependentes de nós para criar as bases para que consigamos nos mover dançando entre o que é nosso e o que é do outro. Podemos parar, andar ou correr, mas medimos a nossa velocidade. Fará sentido imaginar um conjunto de caminhos que se intercruzam? Ou será mais idílica a imagem de todos no seu caminho sem ver que afinal a estrada não existe?
segunda-feira, 11 de maio de 2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
Des-relações
Pelo que tenho sentido e visto à minha volta, parece que terminar uma relação é mais difícil do que fazer uma depilação completa onde se arranca pelo a pelo enquanto alguém segreda: "dói muito, dói?", com um tom irónico. Aparentemente, as relações são infelizes mas tenta-se salvar até às últimas consequências, algo que já está estragado e que cheira pior do que aquela estrada em Sines. E os motivos são muitos: filhos, ter medo de ficar sozinho, ter medo de saltar para o desconhecido, entre outros. Apesar de ser válido, porque o egoísmo e o medo fazem parte da evolução pessoal (done that, been there), por vezes assistimos a casamentos mais afundados que o Titanic, mas que ainda assim lutam para vir à tona.
Creio que isto tem uma génese e um dos factores está relacionado com as histórias fantasiosas da infância. O problema dos contos de fadas é que, para as raparigas, mesmo que o carro se transforme numa abóbora, vamos ser felizes para sempre, e na vida real isto não é assim. A abóbora já se arrasta desmaiada e tem um ar mais cadavérico e assustador do que as abóboras do Halloween. A expectativa é sempre a de que a coisa um dia vai resultar, e insiste-se até à última gota. E no fim temos relações inexistentes: apenas duas pessoas que dividem (eventualmente) o mesmo espaço e o mesmo ódio um pelo o outro. Alguns homens, por seu lado, pulam de casa em casa à procura do tal pé especial para o sapatinho. Muitos, quando o sapato cabe questionam: e se crescer um joanete? Depois o sapato já não cabe...
Não creio que a solução seja "separem-se e vivam felizes para todo o sempre". O segredo está mesmo no processo: eu fico preso nas relações e não consigo sair? Perdi a minha individualidade? E a cereja no topo da abóbora: sou feliz? Não me refiro ao feliz-a-toda-a-hora (isso não existe, lamento desapontá-los), mas ao feliz nas coisas simples, ao feliz de coração cheio e com a barriga a sorrir. E é entre o decidir ir ou ficar que vamos crescendo e nos conhecendo melhor. Digo eu.
Creio que isto tem uma génese e um dos factores está relacionado com as histórias fantasiosas da infância. O problema dos contos de fadas é que, para as raparigas, mesmo que o carro se transforme numa abóbora, vamos ser felizes para sempre, e na vida real isto não é assim. A abóbora já se arrasta desmaiada e tem um ar mais cadavérico e assustador do que as abóboras do Halloween. A expectativa é sempre a de que a coisa um dia vai resultar, e insiste-se até à última gota. E no fim temos relações inexistentes: apenas duas pessoas que dividem (eventualmente) o mesmo espaço e o mesmo ódio um pelo o outro. Alguns homens, por seu lado, pulam de casa em casa à procura do tal pé especial para o sapatinho. Muitos, quando o sapato cabe questionam: e se crescer um joanete? Depois o sapato já não cabe...
Não creio que a solução seja "separem-se e vivam felizes para todo o sempre". O segredo está mesmo no processo: eu fico preso nas relações e não consigo sair? Perdi a minha individualidade? E a cereja no topo da abóbora: sou feliz? Não me refiro ao feliz-a-toda-a-hora (isso não existe, lamento desapontá-los), mas ao feliz nas coisas simples, ao feliz de coração cheio e com a barriga a sorrir. E é entre o decidir ir ou ficar que vamos crescendo e nos conhecendo melhor. Digo eu.
terça-feira, 3 de março de 2015
Cadeias de nós
Existem muitas coisas que nos prendem, e não precisam de ser grilhetas ou correntes que conseguimos ver e sentir. A tristeza, a raiva ou o medo acorrentam-nos e não nos deixam dar passos em frente. Para além disso, pesam-nos, desgastam-nos. Viver perpetuamente assim é sobreviver. Importante é tentar respirar e tentar, pouco a pouco, ir libertando alguns nós e tentar respirar fundo, cada fez mais, por forma a ampliar o peito e depois o corpo. Obtemos mais espaço e conseguimos nos mover melhor. E com o movimento vêm outras possibilidades, outras aberturas que não são só os espaços entre as grades que impomos a nós mesmos.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Fazer por nós
Talvez o gesto mais altruísta seja o "fazer" por nós. Quando trabalhamos o nosso lado mais sombrio criamos espaço para novas emoções, emoções essas mais positivas e mais benéficas para nós e para os outros que nos rodeiam. Ao atingirmos um patamar de tranquilidade podemos assumir uma nova expressão de nós mesmos. Esta nova expressão afectará mais o outro do que querer ajudar de forma forçada.
Para além de que o outro, se estiver numa encruzilhada, não pode nem deve ser forçado a ser ajudado se não estiver em posição de aceitar essa ajuda. É que por vezes não é só uma questão de querer ajuda, por vezes temos de nos levantar pelo nosso próprio pé, ao nosso ritmo e no momento certo. Quando há algo externo a forçar que nos levantemos mais rápido do que devíamos podemos estar a prejudicar os nossos joelhos que ainda não estavam preparados para suportar o peso do nosso corpo. Então, enquanto "ajudantes" devemos aguardar pelo pedido do outro, caso surja, e trabalhar nas nossas próprias dores, pois acredito que influenciamos muito mais quem nos rodeia com um sorriso disponível do que um esgar de impaciência que dita que estamos à espera que o outro nos agarre a mão que nós depois puxamos.
Ser altruísta não é, para mim, estar sempre de mão esticada à espera que alguém a agarre (e assim nos sentimos os heróis do dia). Ser altruísta é estar por perto, fazer o nosso caminho e esticar a mão quando nos é pedido, sem invadir o processo do outro. Não quero com isto dizer que devemos voltar as costas aos outros, mas pensem na diferença entre caminhar lado a lado e dar a mão quando necessário ou estar à frente da pessoa com a mão constantemente estendida: o outro assim não consegue andar porque não saímos da frente dele. Ajudar é também dar espaço para o caminhar do outro. E contagiá-lo com a nossa leveza é mais subtil e encorajador do que um empurrão.
Para além de que o outro, se estiver numa encruzilhada, não pode nem deve ser forçado a ser ajudado se não estiver em posição de aceitar essa ajuda. É que por vezes não é só uma questão de querer ajuda, por vezes temos de nos levantar pelo nosso próprio pé, ao nosso ritmo e no momento certo. Quando há algo externo a forçar que nos levantemos mais rápido do que devíamos podemos estar a prejudicar os nossos joelhos que ainda não estavam preparados para suportar o peso do nosso corpo. Então, enquanto "ajudantes" devemos aguardar pelo pedido do outro, caso surja, e trabalhar nas nossas próprias dores, pois acredito que influenciamos muito mais quem nos rodeia com um sorriso disponível do que um esgar de impaciência que dita que estamos à espera que o outro nos agarre a mão que nós depois puxamos.
Ser altruísta não é, para mim, estar sempre de mão esticada à espera que alguém a agarre (e assim nos sentimos os heróis do dia). Ser altruísta é estar por perto, fazer o nosso caminho e esticar a mão quando nos é pedido, sem invadir o processo do outro. Não quero com isto dizer que devemos voltar as costas aos outros, mas pensem na diferença entre caminhar lado a lado e dar a mão quando necessário ou estar à frente da pessoa com a mão constantemente estendida: o outro assim não consegue andar porque não saímos da frente dele. Ajudar é também dar espaço para o caminhar do outro. E contagiá-lo com a nossa leveza é mais subtil e encorajador do que um empurrão.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Ah, a maternidade!
O meu filho tem quase 7 meses. Mudar-lhe fraldas é como tentar vestir umas calças a um polvo. Umas calças com 8 pernas, entenda-se. Apesar do meu filho ter menos 6 pernas que um polvo, ao movimentar-se parece ter 8. Mesmo a sério. Sendo inverno acrescentem a esta dinâmica de pernas o facto de ser necessário retirar meias ou collants, calças e ainda desapertar o body. Ah, e a fralda, claro. Não esquecer da fralda: voltar a colocar uma fralda nova é todo um exercício que me permite evitar os ginásios e manter um corpo tonificado.
Sendo menino, cedo somos alertados para o facto de que há todo um show de repuxo, como aquela fonte na Praça da Catalunha em Barcelona onde à noite há um espectáculo de luz e cor. E música. Sim, os meninos fazem xixi para cima da sua própria mãe e pai e há uma envolvente de espectáculo nisso: o grito da surpresa do cuidador (qual soprano), a coreografia de apanhar umas compressas para tentar minimizar o dano e sim, mudas de roupa no meio do show (the show must go on!). Pior é quando já ganhamos confiança e eles deixam de o fazer com frequência: quando acontece, acontece em larga escala. É todo um show que mete a Broadway a um canto. E o miúdo merece um Tony pelo seu desempenho: faz aquilo com naturalidade, seriedade e verdadeiro espírito de actuação.
Nem vamos falar do number two... Acho que já chega ouvir a conversa sobre poos entre as mãezinhas. E sim, antes de ser mãe achava que não ia ter essa conversa. Desenganem-se. O poo passa a fazer parte das anotações diárias relevantes para o estado de espírito do miúdo. Poo e não Pooh, o urso. Ele vai para a avó e no final do dia entram na mesma frase palavras como cocó, sopa e sestas. É assim, a maternidade!
Sendo menino, cedo somos alertados para o facto de que há todo um show de repuxo, como aquela fonte na Praça da Catalunha em Barcelona onde à noite há um espectáculo de luz e cor. E música. Sim, os meninos fazem xixi para cima da sua própria mãe e pai e há uma envolvente de espectáculo nisso: o grito da surpresa do cuidador (qual soprano), a coreografia de apanhar umas compressas para tentar minimizar o dano e sim, mudas de roupa no meio do show (the show must go on!). Pior é quando já ganhamos confiança e eles deixam de o fazer com frequência: quando acontece, acontece em larga escala. É todo um show que mete a Broadway a um canto. E o miúdo merece um Tony pelo seu desempenho: faz aquilo com naturalidade, seriedade e verdadeiro espírito de actuação.
Nem vamos falar do number two... Acho que já chega ouvir a conversa sobre poos entre as mãezinhas. E sim, antes de ser mãe achava que não ia ter essa conversa. Desenganem-se. O poo passa a fazer parte das anotações diárias relevantes para o estado de espírito do miúdo. Poo e não Pooh, o urso. Ele vai para a avó e no final do dia entram na mesma frase palavras como cocó, sopa e sestas. É assim, a maternidade!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
She believed she could so she did*
Se antes havia aquela frase "se eu não gostar de mim, quem gostará", hoje é, se eu não confiar em mim, quem vai confiar? Eu acredito em mim. Confio nos meus recursos, seja a minha capacidade de ir correr atrás daquilo que quero, por muito que custe o percurso, ou arriscar, confiando na minha intuição, embora a mente por vezes me atinja em cheio com o medo. É avançar, dar esse passo em frente, mas sem ser quando estamos à beira de um precipício... É saber que andámos uns aninhos a pavimentar o caminho: tiramos as ervas, alisamos o terreno, compramos uma laje bem gira que nos custa os olhos da cara, colocamos no sítio para depois deixar assentar. E mesmo depois disto tudo vamos ficar sentados à entrada deste novo caminho dizendo "ah, ainda não secou. É melhor esperar mais um bocadinho...". Mas sabemos que um dia vamos ter de levantar âncora. É hora de avançar, sem medos porque, caramba, já fizeste o trabalho todo que te permitiu chegar aqui! Avança, é o dia da independência, é o teu dia.
E de facto chegamos a determinados momentos na nossa vida em que temos de nos questionar: eu vivo ou sobrevivo? Não querendo apenas sobreviver, com bastante dose de coragem, acreditei em mim. E dei esse passo. E este é o primeiro passo. Veremos o que acontece a seguir.
*ela acreditou que conseguia, e então conseguiu.
Imagem: http://artfulexpression.blogspot.pt/2011/07/she-believed-she-could-so-she-did.html
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Mudar
Há algum tempo atrás fixei a frase "as pessoas não mudam, revelam-se". Foi na fase da revolta e foi fácil entendê-la e aderir à sua intenção. O facto de uma pessoa mudar ou não, seja o seu comportamento, atitudes, forma de lidar com os outros, sempre obteve algum fascínio por parte do ser humano. Nas relações pessoais queremos sempre entrar no entendimento do outro e, quem sabe, moldá-lo para aquilo que queremos ou precisamos. Quando as pessoas têm tendência para nos magoar, elas revelam-se, neste caso, revelam o seu pior. Penso que nunca vi o outro lado nesta frase. A própria frase parece ser revestida de alguma negatividade e fatalismo. Como um fado na defensiva.
Depois aprendi que, de facto, o ser humano não muda, que a personalidade tem elementos fixos. No entanto, estamos claramente sob a influência do mundo externo, e por isso aprendi a frase: "as pessoas não mudam, adaptam-se". Numa relação a dois o tempo ensina-nos a flexibilizar as nossas opções, atitudes e comportamentos. E aqui é importante perceber aquilo que por vezes pode ser uma ténue diferença entre adaptação ao outro e perda de individualidade. No fundo não deixamos de ser nós, mas ao procurar a adaptação plena, ao procurar que o outro goste de nós, transformamo-nos naquilo que o outro quer. Por momentos deixamos de ter a nossa identidade. Mas ela está lá, não há se calhar mudança, há talvez uma amnésia selectiva de comportamentos. Uma escolha que se torna pesada com o tempo e uma pele difícil de despir. No lado saudável, uma boa adaptação pode promover uma grande harmonia que faz com que as pequenas coisas não se transformem em grandes batalhas.
Ontem ensinaram-me outra frase: "se as pessoas não mudam, mudamos nós". E mudar o quê? Simplesmente mudar a forma como lidamos com a não mudança do outro. E aqui podem existir tantas formas. A melhor é claramente encontrar paz dentro de nós e não permitir que as poluídas não mudanças do outro nos afectem. Se o outro continua no seu registo, se já gastámos as palavras a tentar fazer ver outros pontos de vista, se já tentámos ajudar vezes sem conta e os mesmos erros continuam a ocorrer, então é hora de aceitar. Mudamos a nossa perspectiva, aceitando que o outro é como é. Aceitar a sua infelicidade, os seus insucessos e permitir que eles fiquem com o seu dono que, aparentemente, não se quer livrar deles, ou ainda não está preparado para o fazer Se calhar o medo de ficar vazio é tão grande que assim sempre têm alguma coisa, já pensaram nisso?
Depois aprendi que, de facto, o ser humano não muda, que a personalidade tem elementos fixos. No entanto, estamos claramente sob a influência do mundo externo, e por isso aprendi a frase: "as pessoas não mudam, adaptam-se". Numa relação a dois o tempo ensina-nos a flexibilizar as nossas opções, atitudes e comportamentos. E aqui é importante perceber aquilo que por vezes pode ser uma ténue diferença entre adaptação ao outro e perda de individualidade. No fundo não deixamos de ser nós, mas ao procurar a adaptação plena, ao procurar que o outro goste de nós, transformamo-nos naquilo que o outro quer. Por momentos deixamos de ter a nossa identidade. Mas ela está lá, não há se calhar mudança, há talvez uma amnésia selectiva de comportamentos. Uma escolha que se torna pesada com o tempo e uma pele difícil de despir. No lado saudável, uma boa adaptação pode promover uma grande harmonia que faz com que as pequenas coisas não se transformem em grandes batalhas.
Ontem ensinaram-me outra frase: "se as pessoas não mudam, mudamos nós". E mudar o quê? Simplesmente mudar a forma como lidamos com a não mudança do outro. E aqui podem existir tantas formas. A melhor é claramente encontrar paz dentro de nós e não permitir que as poluídas não mudanças do outro nos afectem. Se o outro continua no seu registo, se já gastámos as palavras a tentar fazer ver outros pontos de vista, se já tentámos ajudar vezes sem conta e os mesmos erros continuam a ocorrer, então é hora de aceitar. Mudamos a nossa perspectiva, aceitando que o outro é como é. Aceitar a sua infelicidade, os seus insucessos e permitir que eles fiquem com o seu dono que, aparentemente, não se quer livrar deles, ou ainda não está preparado para o fazer Se calhar o medo de ficar vazio é tão grande que assim sempre têm alguma coisa, já pensaram nisso?
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