quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Broken and fixed


What's broken can allways be fixed
What's fixed will always be broken


Porque a nossa história permanecerá sempre connosco. A ideia de ultrapassar as dificuldades não pode passar pelo esquecimento mas sim pela alteração da forma como vemos a nossa história. Se partirmos algo de loiça, podemos colar mas nunca deixaremos de ver a cola. Essa é a cola que nos faz olhar de outra forma para essa loiça. Vemos o que já foi inteiro, mas sabemos que já foi partido mas sabiamente remendado. E de remendo em remendo vamos avançando. Seja o remendo a fé de dar os passos de cada dia, honrado essa cola que nos leva mais longe.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Urso

A ansiedade é um peso que nos agarra, que nos aperta e que não nos deixa respirar. É como um urso que não mata mas fica agarrado a nós de uma forma sufocante. É difícil domar este urso, fazer amizade com ele. Ele não nos olha na cara, apenas sentimos que ele está lá, sentimos o aperto na barriga, sentimos o peso do seu bafo nas nossas costas, cansadas que estão de o carregar.

Não existem antídotos fáceis para o urso, mas o primeiro passo de travar conhecimento com ele é muito importante. Poder lhe dizer baixinho: "eu sei que estás aí". Tomar consciência do seu peso, de como nos abraça, num toque quase venenoso para que, um dia, ele comece a ficar mais pequeno. Talvez tenhamos de carregar este urso a vida toda, mas se os seus braços forem mais curtos e mais leves, talvez seja possível respirar mais e melhor. E não há nada como um bom suspiro, conectado, para que o urso encurte os seus braços.



Imagem: https://pt.pinterest.com/pin/391883605058614248/


segunda-feira, 27 de junho de 2016

A decisão de ter um filho



A Mãe carrega um filho dentro de si durante nove meses e mais uns pozinhos. Depois de nascerem, os filhos continuam a ser carregados durante uma vida. Não é necessariamente mais fácil, nem mais leve. Os pesos são diferentes e as formas de pesar também. Em alguns casos há um Pai presente que compõe a tríade e completa esta balança, permitindo que o aumento da carga seja motivo de alegria e contemplação, mas também de receios e contendas. A questão é que as famílias não são as mesmas de quando eramos nós os filhos pequenos, e quanto mais para trás andamos, maiores as diferenças que podemos encontrar.

A vida corre rápida. Também as mudanças entre gerações são cada vez mais rápidas e disruptivas. Quantas vezes pensamos e comentamos: quando tinha a idade do meu filho não existiam telemóveis, computadores… E os nossos pais dizem-nos que na altura deles não havia televisão, o homem ainda não tinha ido à Lua e havia fome de comida e de nutrição. Os tempos mudam e os relógios voam.
Muitas coisas se tornaram mais simples, desde o acompanhamento dos partos às fraldas descartáveis. 

Mas será que a decisão de ter um filho também se tornou mais simples? Em 2014, a taxa de natalidade[1] era, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, de 7.9‰. Para estabelecermos uma pequena comparação, em 1981 era quase o dobro: 15.4‰. Esta permilagem refere basicamente quantos bebés nascem por cada mil habitantes e como se pode verificar, o número é muito reduzido.
Para além de se decidir ter filhos cada vez mais tarde, os problemas de fertilidade são cada vez maiores assim como é maior a dificuldade em tomar uma decisão. As relações não têm a mesma estabilidade formal, reforçado pelo aumento do número de divórcios ou de famílias desestruturadas. 

A crise financeira faz temer o futuro e não facilita na hora de tomar a decisão de ter um filho ou repetir a experiência de ter mais filhos. De facto, Portugal não está neste momento a assegurar a substituição de gerações que só ocorre com uma média superior a 2 filhos por casal. Outra motivação que também tem surgido é um sentido de dificuldade em decidir trazer uma criança para um mundo tão desafiante.

Então, como decidir? O lado biológico ajuda: há efetivamente um relógio biológico que toca, tanto nos homens como nas mulheres e que nos urge a manter vivo o nosso ADN. É possível, isso sim, satisfazer a vontade biológica quando, com consciência e assertividade, podemos tomar a decisão firme de sermos pais. É preciso pesar muita coisa, quer na balança, quer na carteira. No entanto e remetendo para o relógio que teima em tocar, quando não queremos ter filhos, não é fácil desligar o alarme de algo que não temos acesso e que reside bem no interior do nosso corpo.

E como respeitar os que não querem ter filhos? Essa é a parte mais simples: respeitando. Alguém que decide não ser pai ou mãe tem esse poder de decisão, tem as suas motivações, das mais superficiais às mais profundas e, creio, nunca poderá ser intitulado de egoísta. Uma vez ouvi uma mulher dizer a outra: “uma mulher só é mulher depois de ser mãe”. Não há comentário mais injusto e errado do que este, principalmente quando é dito a alguém que na altura lutava com dificuldades em engravidar. 

Uma mulher é uma mulher. E pode ser mãe ou não. Como também pode ser costureira, piloto de aviões ou polícia. E é quando nos consciencializarmos que podemos ser tudo que vamos perder este medo de estar no nada.

Decidam em consciência e presença plenas aquilo que é num dado momento o melhor!




[1] A Taxa Bruta de Natalidade refere o número de nados-vivos ocorrido durante um determinado período de tempo, normalmente ano civil, referido à população média desse período.

Foto: Viktor Jakovlev, unsplash.com
Texto originalmente publicado no site Bem me Quero (http://www.bmequero.com/bem-crescer-1/2016/6/12/a-deciso-de-ter-filhos)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ansiedades


No próximo dia 21 de Maio vou apresentar um workshop de divulgação da Psicoterapia Corporal em Biossíntese onde vamos falar, para além de outras coisas, sobre a ansiedade:

Dia 21 de Maio de 2016
Das 10.00h às 13.00h na Sintricare
Valor: 10€

Vamos tentar encontrar respostas para algumas perguntas que nos assolam no nosso dia-a-dia.

Como gerir a ansiedade? 

Que expressão encontra o stress e a ansiedade no meu corpo?

Qual a relação entre a ansiedade e a qualidade do sono?

Inscrições e mais informações: ana.caeiro@mail.com

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Todas as nossas emoções e sensações têm um objectivo e uma funcionalidade. Se pensarmos na raiva (não na raiva cega), ela pode ser o motor que nos leva a fazer algo, que nos impele ao movimento. A tristeza permite a expressão de algo difícil e a sua mobilização para fora de nós, e a ansiedade e o medo também tem funções muito importantes.

Ao longo do tempo fomos afastando a ideia de que o ser humano é um animal e como tal, cortámos com a percepção daquilo que não é racional e renegamos o que é entendido como impulsos, intuições ou sensações primitivas. Mas somos animais, e o que me tem ajudado muito a perceber o corpo humano, é ter esta informação bem presente.

Vamos imaginar uma gazela. Esta gazela está na savana a comer a sua ervinha de uma forma tranquila mas presente, ou seja, está alerta ao que a rodeia. O seu batimento cardíaco é normal e é o sistema para-simpático que está a trabalhar. Repentinamente surge uma ameaça, há um leão por perto. A gazela dispara, o batimento cardíaco sobe e é o sistema simpático que toma a dianteira, promovendo a reacção de fuga. Quando a ameaça desaparece, assim desaparece o medo e a ansiedade, o batimento cardíaco diminui e a gazela volta calmamente ao seu pasto. Este é o movimento natural entre ficar ansioso e relaxar. O medo e ansiedade têm então esta funcionalidade: manter o alerta para potenciais ameaças e reagir perante elas.

Então qual a ligação para o homem? O grande problema do homem permanentemente ansioso é que não consegue parar de correr a fugir de um leão que só existe na sua cabeça. Há um botão que está sempre ou quase sempre ligado (consciente ou inconscientemente) e que o faz estar ansioso: com um batimento cardíaco mais acelerado, dores de barriga e, em casos mais graves, uma inabilidade tremenda em funcionar.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma questão de perspectiva


O que Charlie Chaplin nos transmite é a ideia de que, se nos afastarmos durante uma tempo de um local, quando regressamos, o local não nos parecerá o mesmo. É como quando voltamos a visitar a nossa escola primária e pensamos: "ena, é tão pequenina, pensava que era maior!". E era. Nós é que ficámos maiores e com isso mudamos de perspectiva. E a questão da perspectiva é muito engraçada: para já, como podemos ver, não é estática, pois vemos como ela pode mudar. Além do mais é rica e diversificada: cada um tem a sua.

No desenho, a perspectiva é a arte de colocar num desenho as diferentes distâncias entre os objectos retratados. Quando visualizamos o quadro, temos uma ideia de profundidade, vemos mais longe e vemos mais perto. Retratando então a nossa vida, como será ter perspectiva? E como jogamos com esta coisa da mudança de perspectiva?

Conforme crescemos mudamos as nossas perspectivas, seja por motivações físicas, como referi há pouco, seja por motivações sociais, ambientais, familiares, emocionais, and so on... E por vezes cristalizamos em algumas perspectivas. O problema é quando o mundo muda o quadro e, de repente, olhamos para as paisagens que conhecíamos e está tudo fora do sítio. E assim continuará porque estamos a olhar para algo novo com algo velho: a nossa antiga perspectiva não vislumbra este novo quadro. Surgem outros problemas: entristecemos, deprimimos, sentimo-nos insatisfeitos, traídos, mal entendidos... Então, como perspectivar também isto? Como incluir o novo, o velho e nós mesmos?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Felizes 366 dias!

O próximo ano é bissexto. Isto significa que vamos ter um dia a mais no calendário. É um dia a mais para:

  • Amar
  • Dançar
  • Sorrir
  • Criar
  • Escrever
  • Sonhar
  • Abraçar
  • Reescrever
  • Desenhar
  • Gargalhar
  • Curar
  • Relembrar
  • Temperar
  • Facilitar
  • Flexibilizar
  • Beijar
  • Co-criar
  • Potenciar
  • Reflectir
  • Rir
  • ...
 O que podem vocês fazer nesse dia a mais?

Felizes 366 a todos os co-autores das próprias vidas :)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Do choro ectodérmico ao choro endodérmico

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.

Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos optimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorrectamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.

Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro: ah este choro, isto é fome. Hum, isto é sono! Lembro-me de estar grávida e ouvir estas palavras sábias: quando o teu filho chorar tu vais saber o que é (parecia uma premonição mágica, eles nascem e desce em nós, mulheres, a enciclopédia ser-mãe-deste-filho-em-particular). É mito. Enquanto algumas pessoas acertam, outras (como eu), vão por tentativa e erro. Muita fralda desnecessária é mudada quando a solução era apenas a de voltar a colocar a chucha na boca do menino.

O choro é uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim, e já vimos isto a acontecer na mesa ao lado num qualquer restaurante. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.

Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.

Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são ectodérmicos. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.


É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.