quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Haja imaginação

Quem tem filhos ou tem de entreter uma criança (ou bebé), sabe que tem de se aprumar na cantoria. Ora eu cá sou péssima e para além do "Atirei o pau ao gato" e da música dos patinhos (que sei incompleta, assim como a música das fábulas da floresta encantada ou a linda-falua-que-lá-lá-lá-vem), não sei música nenhuma. Cheguei a cantar coisas do género: "todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar. O pijama vão vestir e os dentes vão lavaaaar, o pijama vão vestir e os dentes vão lavar. É que agora é hora, é hora de ir dormir, é hora de ir dormir, e" coiso e não sei quê e trálalá...

Pior foi quando dei por mim a cantar Gabriel o Pensador ao meu filho de mês e meio, especificamente aquela em que ele diz que matou o presidente do Brasil: "que morreu ali mesmo, ahn, todo ensanguentado. Quê, sai voando com a polícia atrás de mim, e equanto eu fugia eu pensava bem assim: tinha que ter tirado uma foto para mostrar pros meus filhos, que lindo pô!". Lamento, mas estas músicas saem assim de jorro. Acrescento que o meu filho não acha piada à nossa fase de império mundial. Quando lhe gritei "FUI CONQUISTADOOOOORRRRRR", ele contorceu-se e eu tive medo que isto fosse suficiente para se queixar à protecção de menores. Entusiasmei-me,o que é que querem, só de pensar naquele casaco que a vocalista dos DaVinci usava, até fico a uivar.

Bom, pensei que não tinha o melhor repertório infantil e também já tinha esgotado as músicas de Sérgio Godinho. Acho que o meu filho chegou ao seu limite quando entoei "a paz o pão, saúde, habitação!" Tentei lhe fazer ver que estas músicas estão ainda muito actuais dado o estado do país, mas nada feito. Tinha de cantar música de pequenada. Então... inventei! E como tinha esta linda baleia na mão, foi isto que saiu enquanto eu fingia que ela nadava pelas profundezas do oceano:

Eu sou uma baleia!
A vida é uma alegria.
Eu sou uma baleia,
Como peixe tod'o dia!

Eu sou uma baleia,
Sou peixe de água fria!
Eu sou uma baleia,
Gosto de comer azevia!

Eu sou uma baleia,
Gosto muito de nadar!
Eu sou uma baleia,
Só não consigo andar...

Eu sou uma baleia,
Queria ter uma sardinha!
Eu sou uma baleia,
Gosto dela bem gordinha!

O que os nossos filhos nos fazem...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A hora do conto - Uma carta

O carteiro achava estranho, nunca tinha levado uma carta, encomenda ou postal para aquela morada. Achava até ainda mais estranho o facto daquela rua fazer parte do seu giro e não se lembrar da casa. Conhecia perfeitamente aquela zona. Era, aliás, toda uma aldeia que ele fazia sozinho e onde viviam poucas famílias. Ele sabia que a cidade era mais apetecível e que todos acabavam um dia por fugir. Mas ele não, ele tinha um bom emprego e gostava de andar na sua motorizada pelos caminhos da aldeia, alguns ainda de pedra e outros que nunca tinham visto macadame na vida.

Olhou diversas vezes para a carta. Era todo um mistério. O papel do envelope parecia gasto, amarelado. E parecia uma carta pessoal, coisa rara neste mundo dos computadores e dos automatismos. Estava mais habituado às cartas da electricidade ou da segurança social para os velhotes reformados. Conhecia-os a todos pelo nome e sabia quase tudo das suas vidas pacatas. Eles contavam as façanhas de quando eram novos e o carteiro tentava sempre abreviar senão atrasava as suas entregas e nunca mais chegava a casa.

Ele morava numa vila lá ao pé. Era pouco maior que essa aldeia, mas já tinha outro estatuto, o de Vila! Era diferente, dispunha de mais serviços e era aí que queria regressar depois de tantas cartas e encomendas, queria voltar a casa e apreciar o melhor momento do dia: sentar-se no seu jardim, respirar fundo, enquanto segurava uma cerveja com uma mão e dava uma festa no seu cão com a outra. Era a sua companhia e para ele bastava. E era a esse silêncio que ele gostava de regressar, depois de tantas conversas e histórias dos velhotes da aldeia. Não é que não gostasse da conversa deles, ele ficava muito entusiasmado porque alguns teriam vivido aventuras fantásticas, em tempos não tão fantásticos que o país viveu. Sabia também que devia de existir algum exagero, por isso dizia que eles eram como os pescadores: acrescentavam sempre tamanho ao pescado.

Voltou a olhar para a carta: letra fina, inclinada, uma verdadeira obra de arte. Que raio, já não se enviam cartas assim, pensou ele. Se pudesse apostar diria que era letra de mulher. As curvas das letras eram ondas harmoniosas que subiam e desciam, todas juntas perfazendo as palavras "Rua dos Girassóis". O número 10 parecia quase demasiado perfeito e direitinho, quase que passaria por impressão, não fossem os borrões de tinta ali ao lado. Por um momento pensou que gostava de ter tido aquela letra na primária. Nunca fora muito bom na escola e a sua letra então, era um pesadelo. Os professores sempre ralharam com ele porque não se percebia nada do que escrevia. Mas ele nessa altura não queria saber de escritas, gostava era do recreio e de dar pontapés na bola. Esta letra parecia efeminada e o nome era estrangeiro mas parecia ser de uma mulher. Ainda assim, preferia esta letra à sua. E parecia ser de alguém com estudos, algo que também lhe escapou na vida.

Distraído com a letra nem se apercebeu que continuava em cima da mota, parado no início da Rua dos Girassóis. Pensou em avançar à procura da tal casa, mas houve algo que o distraiu: o selo. Ele conhecia aquele selo. Nas suas horas vagas gostava de ler sobre selos mas não se atrevia a fazer colecção, isso era muito trabalhoso e andar a arrumar selos mínimos com uma pinça não era para ele. Era um selo que comemorava o centenário do selo postal. Mesmo não sendo bom  matemática, o carteiro rapidamente percebeu que algo estaria errado, pois o primeiro selo postal foi em 1840. A memória era fraca, mas ele percebia da história dos correios! E se era o centenário, o selo seria de 1940. Não podia ser, não fazia sentido. Decidiu sair da mota, retirar o capacete e os óculos escuros e colocar os seus outros óculos para ver melhor. A miopia já o afectava há muitos anos e, apesar de ver relativamente bem, não queria ter dúvidas. E aí estava ele. Tinham feito em várias cores, mas naquele envelope estava a versão laranja do selo, que correspondia a 25 centavos. Na imagem estava Sir Rowland Hill, e por baixo "1840 Maio 1940 - Centenário do Sêlo Postal". Ao concluir que se tratava de algo antigo, e quiçá, valioso, percebeu que seria uma brincadeira muito tonta enviar uma carta com um selo tão antigo. Mas, espera, e como é que a carta passou pelos serviços centrais? - pensou o carteiro. Viu de onde vinha a carta: de Lisboa. O mistério adensava-se: como é que uma carta com um selo que não está válido chegou até aqui, tão perto do seu destino? E o nome do emissor era afrancesado, mas não tinham colocado nome no destinatário. A única solução seria a de procurar a casa.

Assim fez, voltou a arrumar os óculos da miopia, colocou os seus óculos de sol e o capacete. Mesmo que fossem apenas uns metros, o carteiro não brincava em serviço, e o medo de cair de mota e de se aleijar estava sempre patente quando dava a volta à chave. Equipado e preparado, com a carta na mão e a tremer de curiosidade começou a procurar as casas. Encontrou o número 4, não era difícil, era a casa da Dona Lurdes, sempre com o estendal cheio de roupa branca ao sol. Ele indagava-se como é que uma senhora viúva que sempre viu vestida de preto sujava tanta roupa branca. Prosseguiu devagar e passou pelo número 6, do Sr. Silva. Uma casa cheia de muros e bem tapada, e também cheia de cães que o carteiro detestava. Eram daqueles cães que gostavam de perninhas de carteiro à refeição, desconfiava ele. O número 8 não existia, era um terreno limpo com uma ou outra árvore. Um dia tinha ouvido o senhor Silva dizer que era um terreno abandonado porque estava em processo de partilhas e estava para ser vendido há anos mas que ninguém se entendia.

Ao continuar encontrou o número 12. Era uma casa fechada, de uns emigrantes no Luxemburgo que raramente precisavam do carteiro. Estranhou, parecia que tinha falhado o número 10. Andou para trás e lá viu o portão enferrujado do terreno abandonado com um grande oito, pintado a tinta há anos. Decidiu parar a mota e investigar a pé. Antes do número 12 percebeu que, no seguimento do terreno abandonado, existia uma série de arbustos muito cerrados que seguiam até à casa dos emigrantes. Ao olhar calmamente e quando se aproximou, apercebeu-se de um pequeno muro, ou o que restava dele, com uma caixa de correio muito velha mas com um número 10 muito nobre e pomposo. Apercebeu-se que, atrás daqueles arbustos estava uma casa. Estranhou, pois não sabia que ali poderia morar alguém, pelo menos nunca lhe tinham dito nada lá na aldeia. Ao olhar melhor para a casa ficou congelado e sem saber o que pensar. A casa estava em ruínas. Era impossível morar lá alguém. O telhado já tinha desaparecido há muito tempo, as portas e janelas não existiam e se houve ali um jardim ou uma entrada, há muito que tinham sido engolidos pela Natureza. Os pássaros cantavam felizes, pousados nos ombrais, e claramente que viviam por ali muitos gatos.

O carteiro ficou sem saber o que fazer. Sentia-se perdido, estarrecido, embasbacado! Tinha nas mãos uma carta antiga com mais de 70 anos, não sabia como é que essa carta tinha passado pelos correios, e o destino era uma casa desabitada, em ruínas, completamente acabada. A vontade de abrir aquela carta aumentou em flecha, mas ele sabia que só havia uma coisa a fazer: deixar a carta na caixa de correio e ir embora. Talvez voltasse no dia seguinte para ver se a carta ainda lá estava. E ia claramente falar com o Sr. Silva, ele poderia saber mais coisas sobre aquela casa!

Assim fez. Mas nessa noite nem dormiu. E quando dormia sonhava com selos, o que não era novidade, mas estes eram selos antigos que o empurravam de encontro a umas paredes altas, como se estivesse num antigo palacete. No meio dessas paredes reconheceu a caixa de correio da casa abandonada, mas quando tentava chegar a ela, ela fugia, rastejando parede acima. Acordou mais cedo do que o normal e decidiu levantar-se. Achava que era demais estar a ficar louco por tão pouco.

Logo cedo, mudou a sua volta habitual para que pudesse passar na casa do Sr. Silva. Ficou ainda mais satisfeito quando viu que tinha uma carta das águas para ele. Desta vez ia entregar pessoalmente, não ia deixar na caixa de correio! Não ia ficar nada contente, o Sr. Silva não gostava de receber contas e culpava sempre o carteiro pelas más novas. Mas antes não resistiu a ir ao número 10 para espreitar a caixa e tentar perceber se a carta lá estava. A abertura não era muito grande, por isso não era possível ver muito lá para dentro. Mas este artesão de caixas de correio conseguiu tirar uma foto com o telemóvel para perceber se a carta jazia no fundo da caixa. Quando viu a foto ficou estarrecido. Folhas velhas, era tudo o que era pertença daquela caixa, folhas velhas e secas... Não pode ser, pensou. Alguém tinha retirado a carta e isto só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto, pensou ele enquanto abanava a cabeça em sinal de desaprovação. Viu que a caixa tinha a fechadura calcinada e que estava intacta, e desta forma não podia ter sido aberta. Não pode ser, repetia ele. Tentou colocar a mão na abertura para perceber se a carta podia ter sido retirada por aí, mas era impossível. Nem que fosse uma mão de criança, a caixa era funda e a abertura não era muito grande. Ainda ficou ali uns minutos a tentar reestabelecer-se. Não fazia sentido.

Como que a acordar de um transe, voltou a focar os olhos e decidiu ir ter com o Sr. Silva. Tenho de tirar isto a limpo, pensou. Se alguém veio aqui, pelo menos os cães do Sr. Silva teriam ladrado. Ao falar com o Sr. Silva, este confirmou que foi uma noite tranquila. "Sabe que às vezes os cães ladram até com uma mosca, mas esta noite foi uma paz. E eu sei porque eu só me deito pela madrugada adentro!". Não pode ser, repetia ele dentro da sua cabeça. Perguntou pela casa ali à frente, antes da casa dos emigrantes. O Sr. Silva quase que se engasgou, e este não era homem para se engasgar, mesmo com 80 e tantos anos. A sua voz parecia sumida: "Ah menino, isso é uma história muito triste, não queira saber." Mas conte-me senhor Silva, disse o carteiro cheio de esperança de obter respostas. "Era de um americano. Pouco me lembro da cara dele, mas os meus pais conheciam-no e ficaram muito tristes com o que se passou. Parece que andava enamorado com uma francesa que simplesmente desapareceu. Era um amor que só visto, mas naquela altura, sabe, não havia cá internetes, e nesta terra não havia cá telefones. Ela foi para Lisboa e depois para a França e ele esperou por uma carta que ela prometeu enviar quando voltasse à nossa capital, tá a ver? Mas a carta nunca apareceu, e as cartas que ele enviava para ela vinham devolvidas. E ele ficou anos sem saber nada dela, mas também não podia sair daqui porque era procurado lá fora, tá a ver? E isto lá para os anos 40, tá a ver? O que vale é que eu tenho boa memória. Então um dia, farto de esperar por ela, enforcou-se. E foi o meu pai que deu com o pobre." O carteiro respirou fundo, agradeceu a informação e ficou feliz por ter deixado a carta no número 10, ao que parece, as notícias da francesa tinham finalmente chegado ao seu destino.

sábado, 23 de agosto de 2014

Sábados em Sintra

Pois é, eu ao Sábado de manhã é mais isto:


Mercado de Sintra! Com a Serra lá atrás para comprovar (já que talvez não se consiga ler o que diz no azulejo...). É raro falhar o passeio de família e o pequeno vai no sling, porque ir de carrinho na calçada portuguesa é para esquecer... E, bom, no meio da estrada... Não convém! Não é que exista estrada para um Fitipaldi acelerar, mas neste pais, nunca confiando...! A aventura de tentar conduzir um carrinho de bebés nos passeios deste país até poderia ser divertida se tivermos instintos que cheguem para também participar no Survivor.

Vamos sempre comprar fruta ao Sr. Fábio e D. Ana, sua esposa. É tudo bom. Então no verão, nem vos conto... A fruta de verão é qualquer coisa que me fascina, talvez por existir durante tão pouco tempo... Há também uma banca de frutos secos (bem mais em conta do que nos supermercados), uma lojinha que tem os bolinhos secos da minha infância (os "S's", os de amêndoa... Oh tempo, volta p'ra trás!) e também uma charcutaria com umas senhoras que são muito queridas e simpáticas: a D. Flor e a sua filha, D. Marta.

Não só a maior parte dos produtos compensam pela relação preço / qualidade como compensa, e muito, a simpatia destas pessoas. Demoramos sempre mais do que o que queremos porque a conversa é como as cerejas, já se sabe. Tenho pena que o espaço do mercado não esteja mais bem aproveitado, existem bastantes bancas vazias. E não há Sábado que não ande por lá um estrangeiro a passear. Sintra não é só a Vila e com algumas ideias interessantes que se calhar nem precisavam de muito investimento, aquela zona da Estefânia poderia ser mais visitada.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Nice, very nice!


- The weekend;
- The Summer;
- The sun!
- The bolas de Berlim;
- The vacations!

Imagem: http://www.verycoolphotoblog.com/2013/08/31/very-nice/

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Dores de crescimento

Crescer dói. Esticam os ossos, já velhos, rangem as dobradiças, como que se queixando de tanta movimentação. O corpo vai falando. Vai doendo e informando. Às vezes é ouvido, outras, preterido. É que crescer custa. Custa o suor que escorre, custa nas costas, já pesadas, e custa no cabelo que às vezes cai.

Poderia fazer uma metáfora com a Primavera. Quando tudo cresce e floresce, o resultado é maravilhoso. E tudo se renova. E o corpo também, e a mente também, e as emoções também. Mas o brotar da flor tem um custo, embora o resultado não tenha preço. A dificuldade reside em conseguir ver a flor quando ainda só temos terra e um caule fraquinho que abana ao vento. Há que regar. O regador pesa, dói, mas há que regar. Ter esperança, ter essa imagem da flor, e com um pouco mais de trabalho e esforço, imaginar todo o campo de flores. Ver o conjunto das nossas pequenas conquistas a florir. Ver que isso atrai mais beleza: o sol a fazer as nossas cores brilhar, os pássaros... E de repente vemos que fazemos parte, já não somos o caule à parte. Mas há sempre Outono depois do Verão.

Pois é, crescer dói. E uma vez tomado o comprimido do crescimento, já não é possível voltar àquela semente minúscula e escondida dentro da terra. Mas também, quem é que quer voltar ao mundo das sombras?

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Parque Jurrásico e a Paleontóloga Ananicas

 Um espinossaurus à espreita

 Vista geral do parque temático (eles são um pouco tímidos)

 
T-Rex! Imbatível...


Eu tenho o Jurrasic Park em casa. Mas são herbívoros, comem cactos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Amici

With friends, if you annoy them too much, they can just drop you. Within this simple fact lies one of the first principles of friendship – tread carefully. Friends are precious, even irreplaceable, but they are also fragile.

A amizade sempre foi uma coisa esquisita para mim. Por isso li avidamente este artigo. Este texto vem no seguimento de uma estatística que diz que 10% dos britânicos não têm amigos, aliás, não têm um único amigo a quem recorrer. Apesar de ser feita uma ressalva para os casos extremos, sejam eles os mais idosos cujos amigos já faleceram ou pessoas sem aptidões sociais, a realidade é atroz: existe um grande número de pessoas que não sabe ou não consegue manter uma amizade.

De facto parece que o segredo é mesmo esse: manter a amizade. Vamos nos cruzando com pessoas, quer seja num trabalho, num curso de línguas ou na faculdade, mas manter a ligação é muito complicado. E há aqui que distinguir dois tipos de amigos: aqueles com letra grande que, por mais tempo que passe sem contacto, vão falar connosco como se tivessemos estado juntos ainda ontem, são amigos do coração, família que se escolhe; e os outros, que dão trabalho a manter... Dentro destes ainda encontro um sub-grupo: aqueles que são amigos que custam a manter e que, por outro lado, com o andar da carruagem, deixam de ter pontos em comum connosco, e estar com eles nem que seja para um café parece mais um martírio.

Eu também sou suspeita para falar sobre amizades. Confesso que apesar de não ser anti-social nem ser uma pessoa com pobres aptidões sociais, sou um bocadinho para o esquisita e gosto muito de separar as águas pondo algumas pessoas na beira do prato. É difícil conquistarem-me e conquistar a minha confiança. A minha irmã é o oposto, a primeira impressão que têm dela é a de uma pessoa sociável, aberta, espontânea e que dá vontade de ficar ao pé. Eu não: sou mais desconfiada, embora tente ser simpática e fico sempre na posição de observadora.

O artigo refere um tónico salva-vidas de amizades: ausência-de-orgulho. É difícil de encontrar, mas reserva-se a uma determinada prateleira e está entre o frasco da humildade e a lamela de comprimidos de compaixão. O problema é que às vezes estes tónicos dão azia quando não resultam, e depois o excesso de compaixão pode dar overdose quando ingerido em simultâneo e em grandes quantidades. Eu acrescentaria que a sinceridade e a comunicação, tal como numa relação de casal podem fazer maravilhas, mas sem ser demais (tudo o que é demais...)...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ele há dias



Sempre que faço asneiras destas vem à ideia a música de Sérgio Godinho: "Há dias de manhã em que um homem à tarde não pode sair à noite nem voltar de madrugada." E é isto.

Nota da redacção: pelo menos está um óptimo cheiro a café na despensa (allways look on the bright side of life, turu, turu, turuturu...).



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Os dias mais importantes


O que é que faz um dia importante? E como distinguir o dia mais importante? Melhor: e quando nos apercebemos de um dia importante, depois dele ter passado?


Hum...


Criamos mais dias importantes?

Mark Twain pode até ter razão, mas estes dois dias pecam pelo mesmo: não nos lembramos deles. Não nos recordamos do nascimento por motivos óbvios e facilmente explicáveis (o desenvolvimento cognitivo e da memória). Em relação ao dia em que descobrimos porque nascemos, das duas uma: ou nos atinge como um raio e nos marca para sempre, ou passamos a vida toda a tentar responder a essa pergunta. Creio que para a maioria dos mortais, onde eu me incluo, se inclina para a segunda possibilidade. Passando a vida toda a tentar encontrar a resposta, por vezes esquecemos qual a pergunta, quase da mesma forma porque nos esquecemos do nascimento mas não pelo mesmo motivo.

A pergunta - porque é que eu nasci, ou o que raio é que eu vim cá fazer - pode ser confusa, ultra-filosófica e consumidora ávida de massa cinzenta. Talvez a solução seja como naquela frase que não conheço muito bem mas que diz qualquer coisa como "aproveitar para cheirar as flores". Com isto quero eu dizer que a resposta e a manutenção desta pergunta presente nas nossas vidas deve estar mais nos sentidos do que no pensamento, a tal da massa. Ir cheirando as flores, olhando o mar e respirando. Claro que parece uma porno-chachada versão new-age, mas para quê complicar? Principalmente quando a massa cinzenta ocupa tanto espaço neurótico? Simplifiquemos.


Imagem: http://diamondwake.com/inspiration/finding-inspiration-drive/

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Oh, lachas!


Estas bolachas são a personificação do demónio. Abrimos para comer uma e "ai que são tão pequeninas, vou comer umas... 40".


É que isto de estar em casa à mercê de um pequeno ditador faz com que, em horas de fome e pouca disponibilidade, se faça um ataque a tudo o que seja lacha (que é como se diz bolacha cá na minha casa). E mesmo que tenhamos tempo (que até temos, na maior parte das vezes... Não me vou desculpar com o picolho...), sacar de uma lacha é algo que finaliza uma refeição em beleza, ou então mata aquele bichinho entre refeições que grunhe nos confins dos nossos interiores. Este sim, o verdadeiro ditador! Que põe e dispõe e nos faz comer coisas perversas como leite creme ou um hamburguer do McDonalds (heresia!!). Mas as bolachas, ah se sabem bem...! Ah! Aquele momento em que sentimos a união entre a lacha e o chocolate... Ou, se forem Oreo (que eu não separo o creme da lacha), sentir o embrulhanço do creme com a bolacha de chocolate...! E as Belgas de chocolate? Desfaço-as dentro do pacote para ir tirando bocadinhos, priceless! Se for verão fica tudo nos dedos, nham!

Realmente isto das lachas é toda uma cerimónia de rituais precisos e preciosos e eu estou desejosa de os ensinar ao gaiato!

Imagem: http://habitatpalavra.blogspot.pt/2013/02/no-ultimo-dia-de-fevereiro-vou.html e https://myapolonia.com/lojaeletronica/loja/Index.asp?secao=3&grupo=26&subgrupo=105&produto=8731

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ainda na senda do positivismo


Tenho a certeza que a neurose e o positivismo são antagónicos. É como a Lua que só brilha quando o Sol se põe: na neurose não há lugar para o positivismo brilhar. Aqui a questão é saber distinguir em nós quem é que brilha mais, se o positivismo, se a neurose. Quanto mais tempo de antena a neurose tiver, menos possibilidade teremos de dar largas às nossas caminhadas para encontrar os great places, e quanto maior a neurose, mais inclinada é a montanha, que se esconde num nevoeiro cerrado.

Era bom que muitos de nós pudessemos ver mais "a cores". Ver mais para dentro do nevoeiro. Talvez seja possível com os óculos do positivismo.


Imagem: http://quotes-lover.com/picture-quote/youre-off-to-great-places-today-is-your-day-your-mountain-is-waiting-so-get-on-your-way-2/

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Stand out!


You go girl!


Imagem: https://www.behance.net/gallery/11233587/Great-Day-2014-Calendar

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Today...


Falemos de positivismo.

Já li em alguns sítios e já me disseram para o fazer: ser mais positiva, controlando as negativas na construção das minhas frases e também construindo alguns mantras positivos para repetir de manhã, ao longo do dia, ou em situações desastrosas. Se de facto tenho repetido para mim que tudo passa, nem sempre as palavras são como uma poção mágica, um feitiço que afasta a neurose. Não a imagino cheia de cagufa a fugir das nossas afirmações. Talvez fuja, isso sim, quando lhe dizemos, sem gritar, para ir andando, que a gente vê-se mais à frente (não se iludam, se não têm pretensões de ser Buda, ela vai estar sempre por perto).

Há quem comece o dia repetindo para si mesmo que o dia vai correr bem. Ou que hoje será melhor que ontem. Terapeuticamente, parece-me bem; pessoalmente, um desastre... Para já teria de me lembrar de o fazer todos os dias, convenhamos que para estas coisas tenho memória de peixinho de aquário... E depois... Será que é preciso convicção para que funcione ou podemos usar a técnica do fingir-até-ser-a-sério? É que nesta fase, convicção para este exercício é difícil de encontrar, por tanto, só mesmo se experimentar a insistência para ver se colho frutos.

Por isso... Hoje vai ser um grande dia!!

Imagem: http://bananaaaaaaaa.deviantart.com/art/It-s-gonna-be-a-great-day-165012013

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Andar à toa quando se quer andar numa fona


Engraçado este livrinho que aqui tenho: "Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis" de Roby Amorim. Ganhei-o numa quermesse da festa lá da aldeia. Ao folhear este livrinho, deparei-me com a origem da expressão "andar à toa". Todos conhecemos esta expressão. "Andar à toa" é usado quando andamos meio sem rumo, ou pelo menos, sem saber por onde vamos nem porquê. Com este livro precioso, descobri que a toa é uma corda ou tira de couro que serve para levar os animais a reboque. Assim sendo, o autor refere que andar à toa significa ser conduzido por alguém, sem noção do destino nem do motivo da viagem...

Sempre que usei esta expressão, nunca a interpretei desta forma, o que é muito interessante. Andar à toa era para mim, como andar à deriva. Claro que sem controlar o destino nem os motivos que nos levam a destoar. Mas, crendo nesta definição de toa, o modo como a frase pode ser empregue muda a olhos vistos. Ainda assim, andar à toa, da forma como eu interpretei, pode claramente ser o ir a reboque da própria vida, sendo ela a que segura essa toa e nos leva sem que tenhamos algo a dizer.

Como este livro é completo, na página seguinte tropecei no "andar numa fona". Convenhamos, esta frase é maravilhosa e pretende descrever aqueles que andam numa roda-viva ou numa grande azáfama, como diz o meu grande amigo Priberam. De acordo com o elucidário, a fona é sinónimo de faúlha. E é engraçado imaginar aquele bocado de fogo a voar e a trepidar em cima do lume-mãe e pensar nas pessoas que andam na sua roda-viva, como se o fogo lhes queimasse o real assento...

Se são conhecimentos quase inúteis, não sei, mas garanto que este tipo de informação é para mim uma delícia.

Nota: Este livro é das Edições Salamandra, de 1985. Foto da autora.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Bebés: formação on-job

Já nasceu o meu rebento, e com isto acho essencial contar o que aprendi no pós parto:

  • O pós-parto é lixado.
  • Compraram roupas para o vosso recém nascido de tamanho 0/1 mês? Esqueçam... Se for um bebé de tamanho normal, elas não vão servir. Vão estar gigantes e o rebento vai parecer um palhacinho do circo Chen, com as cores garridas incluídas. Não sei porque é que temos ideia de que vai nascer um super-bebé. Os bebés recém-nascidos são mesmo pequenos, lição aprendida.
  • O meu bebé dorme que é uma lindeza.
  • Lembro-me de estar grávida e dizerem: tu aproveita agora para dormir. Isso é uma falácia, não resulta. Por mais que o gaiato durma, vai querer alimento de 3 em 3 horas. Para isso o bar aberto, aka, mãe, também tem de estar bem acordada de 3 em 3 horas e não é por ter dormido uma média de 8/9 horas por noite na gravidez que dói menos...
  • Já sei porque dizem que vamos querer ir ao cinema depois de sermos pais: queremos ver outra ficção que não a nossa! Entreter o neurónio...
  • O pós-parto é lixado.
  • A amamentação... Nem vou explicar muito, mas gosto muito desta expressão: my ass para as teorias do ai-é-tão-lindo-amamentar!
  • Comprovo que após o nascimento, o meu filho tornou-se no bebé mais lindo do mundo.
  • Também dou o meu testemunho para o facto de que nos desce a hormona da maternidade. Antes nem respirava ao pegar num recém-nascido, agora faço piruetas com o meu com a mão direita enquanto faço outras trinta coisas com a outra mão. Posso não ter todas as respostas, mas até agora ele está de boa saúde.
  • Já vos disse que o pós-parto é lixado?
  • O parto é um mito, j'accuse! Pelo menos para mim... Passamos meses em preparações: cursos, aplicações para smartphones, newsletters, médicos, amigos, sites, livros, panfletos do centro de saúde... E depois tudo passa e estamos em casa com o menino nos braços (literalmente). E para isto não há assim tanta preparação. Há a respiração para o parto mas não há para quando o bebé chora de dores! E uma mãe precisa de saber respirar fundo nestes momentos... Valha-nos a hormona da maternidade chamada intuiciocina.
  • Sim, há todo um festival de hormonas assim que o gaiato nasce. Boa sorte para isso...
  • E o cliché "ah mas vale a pena"? Claro que vale, senão não me tinha metido nisto!
  • Para os invejosos: já recuperei a minha figura e estou quase no mesmo peso que tinha antes do parto (nha-nha-nhanhanha!). E ainda não retomei o exercício, just saying...
  • Se a vida muda? Sim, 180º (gente, não é 360º... 360º é uma volta completa, voltamos ao mesmo sítio, sim?). E eu já sabia que ia mudar. Se sabia como ia mudar, como ia ser? Claro que não. Nunca lidei de perto com bebés. Mas para já, apesar das primeiras semanas serem difíceis, o mantra foi sempre "tudo passa". E de facto, as dores passam, e ver o nosso filho crescer e ser tão lindo faz-nos ir esquecendo (devagarinho!) os incómodos que nos trouxeram aqui. Acho é que é importante revelar: a maternidade não é um jardim com rosas fofinhas. Estão lá os espinhos em baixo. A questão é que nunca se fala muito sobre isso. É sempre tudo lindo e fofinho e coiso. Mas pode não ser fácil e ter uma boa rede de apoio é essencial. E por isso vos garanto, amén ao meu marido, o melhor do mundo e arredores.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Projectos, aspirações e frases feitas

"O que deixa as pessoas ansiosas em relação ao futuro é um medo atormentador de o melhor já ter passado ou de uma oportunidade perdida se vir a mostrar decisiva. «O que me escapou» é um tema recorrente de vidas românticas falhadas, aplicando-se igualmente a carreiras falhadas, projectos abandonados e aspirações destruídas. Porém, «o que me escapou» resume-se a mantermo-nos fiéis a uma ideia fixa."

Deepak Chopra, "Reinventar o corpo, descobrir a alma" (página 229)


Tenho muitos livros por ler. Neste momento, com um filho tão pequeno, por mais que consiga encontrar uns minutos para me sentar e ler, o cansaço não o permite. Mas não deixo de folhear os meus "livros por ler", que se resumem a uma pilha na mesa de cabeceira. Esperam pacientemente pelo dia em que são lidos para, finalmente, repousarem numa quase eternidade na estante, guardados por ordem alfabética.

Encontrei este livro de Deepak Chopra no meio da pilha. Como em todos os livros, está lá o meu nome, local, mês e ano de compra. Vejo que o comprei em Tavira, nas férias de verão do ano passado. Quase um ano passou, li tantos outros livros e este ficou ali, no meio da pilha, qual torre de Pisa, não fosse o facto de estarem direitinhos e com as lombadas bem visíveis, um trabalho da minha querida irmã que gosta de ver tudo aprumadinho.

Dizia eu, gosto de folhear os livros e ler uma frase ou um parágrafo ao calhas. E aqui eu encontro o maravilhoso humor do destino, universo, ou como o quiserem chamar. Sempre que faço este exercício livresco, encontro algo que faz todo o sentido em determinado momento. E rio-me, porque de facto, comprei o livro há um ano e agora que o abro sei lá onde, encontro umas frases que me servem como uma luva.

Não é que não soubesse, desde já, o que diz ali em cima, mas por vezes andamos tão distraídos (e acreditem, nunca estive tão distraída dentro da minha própria casa) que não percebemos que certas "frases feitas" que já incorporamos há uns tempos atrás voltam a ganhar validade e a tomar um novo sentido, numa altura diferente e de forma diferente.

E é isto que eu adoro na evolução pessoal. Por mais que já tenhamos aprendido a lição número 1, 2 ou 3, elas voltam a surgir nas nossas vidas. E aqui não creio que haja uma regressão (não defendo a teoria de que podemos regredir na evolução pessoal, acredito em estagnações, ou patamares de escadas, como já falei aqui), mas sim duas coisas: primeiro, uma confirmação, ou seja, uma forma de validar se aprendemos de facto a lição, e ao repetirmos esta "cadeira" validamos não o conhecimento, mas sim a sabedoria que temos sobre o tema;  depois acredito que uma lição pode servir de base para outros temas.

Vejamos o exemplo dado por esta frase de Chopra. A ideia base é a mudança, mas também fala sobre o medo do futuro, das decisões e em última instância, da responsabilização sobre a nossa vida. Aqui, a "lição", pode se desdobrar em inúmeras aprendizagens e a diferença sobre o que vamos aprender, creio eu, reside apenas no momento em que vamos receber esse conhecimento, pois dependendo de como somos nesse momento, vamos interpretar de diferentes formas. Se eu tivesse lido esta frase há um ano, se calhar ia para a parte dos relacionamentos, de ter casado recentemente e de planear ser mãe. Neste momento a minha leitura é outra, e apesar da "lição"/frase ser a mesma, a aprendizagem pode ser outra completamente diferente.

E da mesma forma como eu posso interpretar esta frase de forma diferente ao longo do tempo, imaginem a quantidade de interpretações que pode ter, consoante a pessoa que a lê! Claramente que, se não for altura de assumir a mudança e interpretar o que se lê, não existem frases feitas no mundo capazes de mudar. Por isso, acabo por ser bastante crítica quando vejo todas aquelas frases feitas nas redes sociais com uma bela paisagem como pano de fundo. Quando leio essas frases e associo a quem as publica fico um pouco admirada: a pessoa não leu as entrelinhas, ou então a interpretação que faz é a que mais lhe convém...

Por mais frases bonitas e livros fantásticos que existam no mundo, a interpretação desse conhecimento e a sua passagem para uma sabedoria construtiva, com pés e cabeça vai depender da vontade de cada um de mudar e evoluir, e isso, tem um custo: dura a vida toda e uma vez que se dá esse passo, não há como voltar a olhar para trás da mesma forma.

Imagem: http://hazatelierarquitectura.com/2012/06/11/projectos-chave-na-mao/